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Nascido na Estrebaria

Na sua recente passagem por Teutônia, conversamos com o Pastor Silvio Meincke sobre o significado do Natal.

P.: Pastor, o Natal se aproxima. Qual seu significado?

R.: Sobretudo alegria, porque o nascimento do menino Jesus é notícia boa para todos nós, conforme proclama o anjo: “Trago uma boa notícia a vocês, e ela será motivo de grande alegria. (Lucas 2.10).

P.: Qual é o motivo dessa alegria?

R.: A criança revela que nosso Deus é Deus bondoso. Esse é o motivo da alegria. O menino no estábulo veio em total humildade para revelar que Deus quer o bem para todos nós, sem exceção e sem excluir os mais humildes. Por isso mesmo, seu enviado nasce como ser humano – a vontade de Deus se faz um ser humano e mora entre nós – e chega bem perto de nós, como uma criança indefesa, para ser acolhida, comunicar-se conosco e trazer-nos essa boa notícia.

P.: E as luzes?

R.: As luzes que iluminam nossas casas e as ruas das nossas cidades, nessa época do ano, são símbolos. Elas querem dizer que o menino da manjedoura pode e quer iluminar o nosso caminho; querem dizer que seus ensinamentos, assim como uma lâmpada, podem e querem clarear nossos passos e nossos caminhos.

P.: Por que a estrebaria?

R.: Estrebaria, cheiro de estrume, moscas, pulgas, escuridão. O menino Jesus deitado no cocho de animais; a manjedoura como primeiro berço. Com isso, Deus quer mostrar que vai muito longe para estar próximo das pessoas; que vai até onde estão seus filhos e filhas excluídas e marginalizadas, desprezadas e esquecidas pela forma como organizamos nossa convivência social. Nascendo na estrebaria, Deus solidariza-se com as pessoas que não encontram lugar para viver, que não encontram pouso, que são mandadas embora.

P.: Queres dizer que encontramos Deus na periferia.

R.: Encontramos Deus em todos os lugares, no centro e na periferia. Ele revela seu amor a todas as pessoas, sem deixar ninguém de fora. Jesus, por exemplo, vai à casa do exator Zaqueu (Lucas 19.2-10) e recebe o centurião de Cafarnaum (Lucas (7.1-10). Mas ele vai, em primeiro lugar, aos que necessitam de apoio com maior urgência; ele visita, antes de tudo, as pessoas que nossa organização social empurra para a periferia e manda embora, assim como os hoteleiros mandaram seus pais embora. Lá está ele, entre as pessoas que são excluídas, assim como ele foi excluído. Essa é a mensagem de Natal: Organizem a convivência social de vocês de tal forma que os excluídos sejam incluídos, que os rejeitados sejam acolhidos, que os esquecidos sejam lembrados, até que ninguém mais precisa nascer na estrebaria.

P.: Como devemos entender a glória de Deus que o anjo vê e exalta na criança?

R.: A glória de Deus, que o anjo proclama, manifesta-se exatamente na humildade solidária da criança; na sua fragilidade de menino; na forma meiga como conquista os corações no lugar de impor sua vontade pela força; sua glória manifesta-se na solidariedade que cruza o fosso social entre centro e periferia e vai até os estábulos. Essa é sua glória. Se a sua glória fosse banhada em ouro e poder, em palácios e armas, ele não iria cruzar o fosso social da nossa sociedade dividida; ele não iria solidarizar-se com a gente que vive do lado onde estão os barracos.

P.: Uma palavra final, pastor Silvio.

R.: Celebro também este Natal, feliz e contente, porque mais uma vez, Deus me diz que chega tão perto de seus filhos e filhas que não esquece ninguém; que chega manso como uma criança para que todos e todas possam aproximar-se sem medo: “A Palavra de Deus se fez um ser humano e morou entre nós” – João 1.14 a. Alegro-me com a definição surpreendente de sua glória: “Vimos sua glória, cheia de amor e de verdade; foi essa glória que ele recebeu como filho que revela a vontade do Pai” – João 1.14b. Vou celebrar o Natal com alegria porque Deus – cuja glória reside na humildade da estrebaria e na solidariedade de Deus que chega perto – continua a bater na porta da minha casa, assim como bate na porta das pessoas que excluímos, marginalizamos e desprezamos. Vou abrir a

porta e, se ele me convidar, vou acompanhá-lo, mais uma vez, para visitar os doentes nos corredores dos nossos hospitais onde faltam leitos; vou com ele, mais uma vez, até os quilombolas que lutam pelo reconhecimento das terras onde moraram seus antecedentes quando fugiram da escravidão; vou protestar com ele, mais uma vez, na companhia dos indígenas que sempre são mandados embora e que sobram, sem lugar para viver, quando suas terras são roubadas; vou tomar chimarrão com ele, mais uma vez, na roda dos sem terras que resistem e lutam para não cair nas periferias miseráveis de nossas cidades. Vou atravessar com ele o largo fosso social que divide, desde sempre, a nossa sociedade injusta. Vou com ele para o outro lado do fosso, onde estão as pessoas mal vistas que nascem e vivem em lugares sem conforto e cheios de carências, assim como ele nasceu carente, na estrebaria, entre moscas e cheiro de estrume.

Silvio Meincke

Dezembro de 2017.

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Nascido da Virgem Maria

Uma garota fica grávida sem ter relação com um homem. É virgem e vai ser mãe. Depois de muitas dúvidas, pesadelos e mensagens de anjos, o carpinteiro José toma essa garota grávida como sua esposa. Também assume a paternidade da criança que vai nascer (Mateus 1.18-25).

Dizem os evangelistas que Maria engravida por decisão divina, pela força de Deus que chamamos Espírito Santo.

Sinceramente, a virgindade de Maria nunca nos interessou do ponto de vista biológico, do ponto de vista médico. Sempre sabíamos que os evangelistas que escreveram a história da Maria eram poetas, não

ginecologistas. Ao mesmo tempo, sempre levamos a mensagem dessa história muito a sério e perguntamos o que ela quer dizer-nos. Entendemos que ela expressa a visão de uma nova convivência das pessoas, de um relacionamento humano novo, que brota da fé; entendemos que ela expressa um relacionamento que não é determinado pelo domínio de uns sobre os outros, muito menos pelo domínio de homens sobre mulheres.

Na língua que os evangelistas falavam, o Espírito de Deus é do gênero feminino. Quando dizem que o menino da manjedoura nasce da força desse Espírito, eles querem dizer: NA ESTREBARIA DE BELÉM INICIA ALGO TOTALMENTE NOVO. Novo, porque corresponde à vontade de Deus. Trata-se de algo tão novo que não brota de uma força masculina, por exemplo, dos soldados romanos que dominavam a terra de Maria e José e que organizavam a sociedade pelo poder da espada. A história do Natal anuncia uma nova realidade, que não se baseia no poder dos patriarcas que apoiavam o mais forte que derrota o mais frágil; a história de Maria contesta o heroísmo dos vencedores que pisam nos vencidos. Por isso, Maria louva e canta: “Deus derruba dos seus tronos os reis poderosos e põe em altas posições os humildes” – Lucas 1. 52.

A virgindade de Maria desmente a ideia de que todas as estruturas devem ter um homem poderoso no comando, pois a sua gravidez não precisou de nenhum homem para gerar o que é novo.

Essa bela história de Natal também derrota a ideia de que cada estrutura familiar precisa ter um homem que fecunda e uma mulher que é fecundada. O relato dos evangelistas dá importância e lugar a José somente depois, quando Maria já está grávida, e quando é hora de cuidar carinhosamente dela e da criança que está por vir.

A forma como os evangelistas contam a história do Natal traz um conforto carinhoso às famílias que tem estrutura não convencional, não costumeira, não clássica; dá consolo às famílias que vivem uma estrutura familiar diferente do tripé clássico: Pai, mãe e filhos. Ela dá razão a uniões variadas, com ou sem filhos. O que importa é o carinho, o aconchego, o cuidado de uns pelos outros, o bem querer.

A história de Maria traz uma notícia animadora às pessoas que vivem o sonho de uma convivência social nova; uma convivência social que abdica da divisão entre vencedores e vencidos, entre dominadores e dominados, entre merecedores e não merecedores. Ela traz uma notícia animadora também para pessoas que vivem modelos familiares que não são os modelos tradicionais. Essas pessoas estão em boa companhia. Elas estão na companhia da família nada convencional que é constituída pela garota

Maria, que engravida fora do casamento, pelo carpinteiro José e pelo menino Jesus.

 

Silvio Meincke

Maike S. Ulrich

Dezembro de 2017

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Lançamento Semente de Esperança 2018

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Justiça: clamor do povo de Deus na Bíblia e nos dias atuais

Prédica feita pela PPL EST no Encontro Nacional 2017 da PPL.

Que a Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Amor de Deus, Pai e Mãe, e a Comunhão do Espírito Santo seja com todos e todas vocês. Amém!

Prezada Pastoral Popular Luterana dos quatro cantos do Brasil,

Este é o mês da Pátria, mas talvez haja muito pouco a se comemorar.

O talvez maior crime ambiental do Brasil, o assassinato de um rio, por conta de um sistema que não prioriza segurança e responsabilidade, mas sim o lucro, passará em branco. Ao mesmo tempo, a Amazônia será leiloada para a extração de seu minério, sob todas as consequências ambientais disso decorrentes, construção de barragens e o apodrecimento da floresta sob as águas enclausuradas, o desmatamento para o plantio de soja e a criação de gado, um gado muito espaçoso, para o churrasco, um pouco dele nos nossos domingos, a maioria para a China e Rússia. Na lógica atual do Brasil, um boi vale mais que uma árvore e o ecossistema que ela sustenta. Se tratando de povos indígenas ou povos tradicionais da floresta, então nem se fala, um boi vale mais que uma aldeia inteira.

Os direitos trabalhistas e a previdência também é leiloada e com ela toda qualidade de vida e a chance de futuro do brasileiro e da brasileira, no mesmo momento que dívidas bilionárias, trilionárias são perdoadas de empresas sonegadoras.

Salários de professores e professoras são pagos às migalhas e bolsas são cortadas sem dó nem piedade, em um país que se prioriza promotores e juízes a cientistas e intelectuais; prioridade essa que nem ao mesmo se reverte em mais justiça, pois temos um sistema judiciário lento e de uma lei tão morta como a que Jesus e Paulo criticavam: há casuísmo demais, lei para tudo, para condenar e para absolver – depende a cara do freguês.

O que temos, então, para comemorar neste mês da Pátria? Sim, o que temos para comemorar?

O festival de injustiça dos últimos tempos é digno de uma tragédia grega. Deputados e senadores assumem a tarefa de juízes, mas o fazem sob clara e evidente perspectiva política, não julgando fatos, crimes, provas, mas governabilidade, ou seja, aliança política. Mesmo juízes profissionais se deixam levar pela maré política do Brasil, onde todo fato, toda verdade, todo princípio absoluto de direito, da constituição, da ética, se esvai no subjetivismo da “lei para os inimigos, não para os amigos”. Subjetivismo esse, aliás, que está presente em todos os ambientes do Brasil, seja na macropolítica, seja mesmo em nossas comunidades e instituições: o amigo não se julga, e quando se julga, o é com muita misericórdia; mas o inimigo, a este ergue a clava forte. Se o amigo não se julga, o parente recebe toda proteção jurídica possível. Quanto ao negro, o pobre, o índio, o travesti, quem poderá defender?

Proponho uma nova analogia teológica. Quando quisermos entender o binômio Lei e Evangelho, expliquemos assim: Lei é aquilo que vale para pretos, pobres e putas; Evangelho o que vale para amigos e parentes. Não preciso dizer que esta analogia apontará para a catástrofe teológica que vivemos atualmente e que tende a se estender, tendo em vista a apatia generalizada, inclusive em espaços e indivíduos que deveriam estar entre os mais indignados. Como falar em justiça divina no nosso contexto? Como dizer “outros 500” sem uma profunda inocência ou hipocrisia?

Certamente um conceito que a teologia como um todo, mas especialmente a teologia da libertação terá que aprender a falar e a ressignificar é o conceito de justiça. Seria justiça divina o aparato de poder, aparato punitivo, de manutenção do status quo, ferramenta dos poderosos sobre os fracos, assim como é a justiça humana? Nesse caso, Deus seria como um ídolo que esmaga seus devotos, um ídolo diante do qual levamos nossos sacrifícios para serem imolados, sangrados e queimados. Seria a justiça divina o instrumento de vigilância contínua, espionagem, perseguição, e exposição pública das fraquezas mais íntimas? Bom, esse Deus agrada muito aos moralistas; agrada tê-lo de olhos sobre os outros enquanto desvia os olhos de nós mesmos. Seria, então, a justiça divina um monumento pesado, das toneladas de papeis imóveis, dos casuísmos farisaicos e burocráticos da linguagem forense dos dogmatas mais fervorosos? Não foge muito à realidade também. Vocês devem ter percebido que estas três concepções de justiça divina são as mais em voga na teologia, o que não é nenhuma surpresa quando nos atentamos para o contexto em que nós vivemos: estão completamente encarnadas na vida real.

Mas diferente dos dias de hoje em que a justiça é a invocação dos poderosos que fazem uso dela como arma “civilizada” de domínio e força para conseguirem o que querem, a justiça da Bíblia, particularmente nos Profetas e nos Salmos, é a invocação do injustiçado, do perseguido, do atormentado. E diferente dos dias de hoje em que o juiz é o representante das classes dominantes, o juiz da Bíblia é o Javé do deserto e das montanhas, que desce e peleja por seu povo.

Justiça na Bíblia é diferente da justiça corriqueira de nossos dias, justiça é sinônimo de vingança, ou vice-versa. A dificuldade da teologia em lidar com o clamor por vingança dos profetas, do salmista, dos mártires em apocalipse é a dificuldade do teólogo de gabinete em sentir na própria pele a perseguição que o povo pobre do Antigo e do Novo Testamento sofreu, é a dificuldade em compreender na própria carne as injustiças diárias que os povos indígenas, quilombolas, os pequenos agricultores, os favelados, os subempregados, as mulheres, os homossexuais são afrontados. Estes e estas, assim como o profeta, clamam: vinga-me, Senhor! Quem não vive na pele, quem não sente na alma, não pode entender o conceito de justiça e vingança na Bíblia.

Quando se trata de justiça divina, não são teólogos ou teólogas que têm a ensinar ao povo, mas o movimento é o oposto: nós que temos que aprender com o povo pobre de Deus que diariamente sofre a afronta dos poderosos, o povo que sofre a afronta de quem usurpa a qualidade de fazer justiça de Deus, o povo que permanece fiel à justiça que Javé promete e realiza. Quem usurpa o poder da justiça para fazer injustiça, coloca-se no lugar de Deus. Amar a Deus, portanto, é não se submeter a esta usurpação, não se sujeitar à injustiça, não se deixar ser cooptado pela injustiça, mas levantar-se contra os usurpadores, ter os olhos fitos em Deus e sua justiça, e clamar tão somente por ela, pois só ela lhe pode fazer justiça.

Quem clama por justiça não pode ser instrumento de injustiça, por isso os mandamentos iniciam com a memória do Êxodo. A vingança clamada não é a inversão da injustiça, como se tem medo, mas é a restauração da justiça, é a correção da injustiça; não é veículo de ódio, mas contra o ódio. O clamor pela justiça é o clamor daquele e daquele que não entra no jogo de força e injustiça. É o clamor daquele e daquele que não quer usar das ferramentas disponíveis no jogo, mas apela que Deus rompa o jogo. O clamor pela justiça e pela vingança de Deus é o clamor de indignação, ou seja, da ira que não é ferramenta do poder, mas ferramenta contra o poder. Este clamor, portanto, é clamor solitário e abandonado, é clamor longe dos centros de poder, dos círculos de influência: é clamor dos excluídos, dos de fora do centro.

Engana-se, então, quem pensa que é clamor de vitoriosos: é clamor de derrotados. Pois essa indignação, revolta, rebeldia, tem tudo pra não levar a lugar nenhum. Ela é a indignação de quem já perdeu o jogo e não de quem pode jogar. Ela é cruz! O derrotado e a derrotada, que é derrotado e derrotada por se negar a fazer o mesmo jogo de injustiça, de corrupção, de suborno, clama a Deus: Até quando, Senhor? Faze-me justiça, Senhor!

A este clamor, Deus responde com seu Evangelho: Volta-te a mim. Fite os olhos em mim. Espera somente em mim. Aparta-te do vil. E então serás como a minha boca. Será como a minha boca para anúncio de Evangelho, anúncio de justiça num mundo de injustiça, anúncio de amor num mundo de ódio, anúncio de paz num mundo de violência, anúncio de esperança num mundo de angústia, tormento e perseguição. A justiça de Deus não é ofertada como indenização particular, mas sempre como serviço e como missão. Deus não me faz justiça para meu gozo individual, mas sempre faz justiça como inauguração de novas relações com o próximo e consigo. Justiça de Deus é dádiva a ser compartilhada. Deus não julga separadamente, pela cara do freguês. Todo juízo de Deus é epifania de seu Reino e seu reinado.

De fato, esta fé e esperança não leva a lugar nenhum. Mas o lugar nenhum para qual o profetismo leva é assumido como lugar de esperança: o não-lugar, utopia. É a negação de todos os lugares de fronteiras e limites delimitados, de posse alegada, escriturados. A esperança não se agarra a algum lugar, mas ao não-lugar. Nós somos colocados como muros de bronze deste não-lugar que não possui fronteiras, pois nós somos suas fronteiras, pois vivemos de esperança, nós que vivemos ambiguamente entre o tormento e a justiça, entre o pecado e a graça, entre a cruz e a ressurreição: transição, fronteira, muro, ponte, porta, caminho, boca que se fecha e que se abre.

Faze-me justiça, Senhor! E a justiça que Deus nos faz é contra todo senso de justiça própria, toda autojustificação, toda alegação próprio de justiça, santidade, ortodoxia, ortopraxia. É justiça que ensina humildade, é justiça que ensina gratuidade. Podíamos modificar levemente o hino nacional para ele caber nessa nova noção de justiça que Deus faz irromper entre nós: O penhor da igualdade é conquistado com mais que braços fortes, com abraços fortes, com abraços que compartilham a dor e o gozo, o tormento e a esperança, a angústia e a coragem. Que Deus nos coloque como muros de bronze que sustentam a partilha e abriga a Igreja militante que suporta os tormentos da injustiça, muros pichados com o testemunho de nossa indignação.

Que a graça de Deus nos inspire a novas relações de dignificação da vida, respeito à diversidade e acolhimento das dificuldades, para que os clamores por justiça e livramento possam dar lugar a cânticos de esperança. Que o lugar nenhum que nossa luta leva continue muito forte e vívido em nossos sonhos, que sejam semeados fartamente amor e esperança. E que a paz de Deus que excede todo nosso entendimento nos livre e nos guarde, agora e sempre. Amém!

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Encontro Nacional e Assembléia da PPL

A Pastoral Popular Luterana estará realizando nos dias 07 a 09 de setembro o seu encontro seguido da assembléia.

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Reflexos de um Advento e Natal

 

Nesse advento e Natal me deixei conduzir pela confissão de Maria: “Ele se lembrou de mim, sua humilde serva” (Lc 1.48a)  Não há palavra mais própria do que essa para a época que estamos vivendo. Essa palavra de Maria já havia me marcado, mas esse ano soa de modo bem especial. Não há como ignorar o crescimento da violência física e verbal na nossa sociedade, o aumento significativo do preconceito contra identidade de raça, gênero e situação econômica. Tudo isso alimentado pela meritocracia, eficiência e sobrevivência do mais apto e forte, beirando à bestialidade. Continuamos presenciando as pessoas correndo desesperadamente atrás do mercado religioso, buscando o atendimento de desejos, seduzidos para a superficialidade e banalização de valores, da instrumentalização da Bíblia, do uso de Deus moldado aos desejos de cada um. Nessas condições Deus não é Deus. É simplesmente um ídolo criado a imagem do ser humano. E isto está longe da expressão de fé dada por Maria.

No Advento e Natal esperamos que Deus se manifeste entre nós. Deus vem ao nosso encontro. Não precisamos moldar Deus. Ele é como é. É o tempo para que Deus se mostre a nós como Ele é e como Ele quer ser visto por nós. Lutero já afirmava: para conhecer Deus basta olhar para a vida de Jesus. Ali Deus se revela. Todo o resto é especulação. E tudo que é especulação é desvio de Deus. Assim temos o que precisamos. Essa é a intenção do cântico de Maria. Apontar à comunidade cristã o que importa e o que é central para a vida dela. Maria é aqui cada um e cada uma de nós nesse tempo de espera.

Maria canta para Deus uma canção de louvor e gratidão.  Maria se considera abençoada: “Pois Ele se lembrou de mim, sua humilde serva”. E é isso que Maria é. Deus se lembrou dela. Não conquistou nada, não mereceu nada, não comercializou nada com Deus. Deus simplesmente viu Maria e se lembrou dela. Mãe solteira, jovem, sob o risco de ser abandonada por Jose, seu pretendente. Maria que conseguiu crer no mistério de uma gravidez incomum. Quem vai acreditar nisso? O que não devem ter dito os moralistas e os puritanos de plantão? E o risco de Maria, que poderia ser acusada de adultério e assim ser condenada a pena de apedrejamento? Maria sente-se abençoada, pois vivencia uma experiência de graça e por graça de Deus. Não é algo pelo qual Maria tem que pagar um preço ou o dízimo. Dar para então receber em dobro de Deus, provar a sua fé. Ela não precisa pagar um preço com orações intermináveis, apelativas e sentimentalistas, buscar desesperada pela santificação com hora marcada para a conversão e quem sabe uma experiência espiritual mais forte. A experiência espiritual mais forte de Maria é a notícia de sua gravidez pelo Espírito Santo. Não é uma luta angustiante pela benção que nunca vem. Deus abençoa do seu jeito. Faz Maria sentir-se abençoada e cheia de vida e alegria. Maria expressa a sua fé e confiança em Deus afirmando que é uma serva do Senhor. Diferente de todos que querem manipular Deus, que exigem que aconteça o que desejam.

O cântico de Maria tem fé, louvor, maternidade profética e cidadania. Não é uma mãe tão somente ocupada e preocupada consigo mesma e apenas com o seu futuro filho. É uma mãe que desperta, coloca os olhos no mundo para dentro do qual vai nascer o seu filho. Para esse mundo ela dirige uma palavra profética, uma palavra cheia de esperança e cidadania. Ela tem coragem de dizer a si e ao mundo o que almeja e pelo que luta (Lc 1.51-53). Como mulher oprimida (jovem, grávida e solteira) ela toma o direito de dizer a sua palavra, o direito de pronunciar a sua opinião, seu desejo, seus sonhos, o que faz parte de tudo o que pertence ao sustento e as necessidades da vida. Quem de nós consegue expressar na sua vida tamanha expectativa e novidade de vida, observada e feita uma leitura da realidade de nossa sociedade?

Enquanto muitos esperam receber privilégios e terem atendidos os seus desejos de prosperidade e consumo, Maria assume o papel que Deus lhe dá. Torna-se serva da causa de Deus, profética e portadora de esperanças dos empobrecidos e humildes.

Sejam abençoados os últimos dias de Advento e um comprometido Natal.

Renato Küntzer

Coordenador Nacional da PPL.

 

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Vídeo Encontro Nacional REJU 2016

Encontro realizado com o Apoio da PPL em contagem Minas Gerais

Encontro Nacional REJU 2016 de Fernanda no Vimeo.

Para mais informações sobre a REJU (Rede Ecumênica da Juventude), acesse o link.

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Manifesto São Leopoldo  

Em memória do P. Valdir Frank (1954 – 2016)

             “Buscai o bem e não o mal, para que vivais”. (Amós 5.14)

Vivemos tempos difíceis em nosso país. A democracia está ameaçada. Recentemente o país passou por uma ruptura democrática, as instituições políticas estão fragilizadas e desacreditadas e a participação popular direta é desprezada e reprimida. Vemos a desigualdade social, a pobreza crescendo novamente, enquanto a educação e a saúde pública vêm sendo ameaçadas. A previdência pública e a CLT estão em debate, enquanto a retirada de direitos é explicitamente defendida pelo atual governo, em nome de um ajuste econômico ameaçador. O agronegócio segue pautando a defesa do latifúndio e o uso exacerbado de agrotóxicos ameaça a vida de milhares de pessoas e traz danos irreparáveis ao meio ambiente. Os povos indígenas são cada vez menos respeitados, enquanto seus direitos culturais e territoriais são crescentemente prejudicados. A violência contra mulheres e o assassinato de jovens têm classe e cor – pessoas empobrecidas, negras e negros. A IECLB é parte da sociedade, de tal modo que também na base das comunidades as dores e os sofrimentos causados por violências e desigualdades se fazem sentir das mais diversas formas. Essa realidade questiona a nossa fé e o nosso papel público. Por isto – como Igreja alicerçada no Evangelho da graça e do amor libertador – precisamos retomar a nossa tradição recente de denunciarmos todo e qualquer retrocesso democrático que implique perda de direitos políticos e sociais. Só assim teremos credibilidade pública para anunciarmos esperança em meio a esses tempos sombrios no Brasil e no mundo.

Nesse contexto complicado, nos encontramos em São Leopoldo, no dia 28 de novembro de 2016, na Faculdades EST, convidadas pela Pastoral Popular Luterana, com o apoio da Fundação Luterana de Diaconia, pessoas oriundas de distintas comunidades e setores da IECLB, para refletirmos sobre este momento e o nosso papel como pessoas de fé, cidadãs comprometidas com a justiça, a dignidade humana e de toda a criação. Escutamos as falas da Pastora e professora de antropologia Lori Altmann e dos ex-Pastores Presidentes Gottfried Brakemeier e Walter Altmann que fizeram um resgate da presença e do papel público da IECLB nas últimas décadas.

Evidenciou-se, mais uma vez, que política é luta pela vida, pela liberdade da pólis. Entendemos que a participação política é diaconia transformadora, é uma ação e um serviço cristão para a transformação da sociedade. Política não pode ser reduzida à política partidária. O amplo diálogo democrático é o único que garante o exercício da cidadania, como prevê a Constituição Cidadã de 1988. Como pessoas crentes, de confissão luterana, concordamos que não cabe a uma igreja ou às pessoas que professam a fé cristã propor soluções para os graves problemas políticos do país. O que lhes cabe, sim, a partir do Evangelho, é apoiar, fomentar e insistir nas lutas das pessoas e de todos os movimentos sociais que buscam a justiça, a vida digna e o bem do povo. Como escreveu a Presidenta da Conselho da Igreja, Dra. Ema Marta Dunck Cintra, em seu relatório ao XXX Concílio da Igreja realizado em Brusque/SC, em outubro passado:

“Precisamos, mais do que nunca, por meio do Evangelho, humanizar homens e mulheres coisificados e somente valorizados naquilo que se refere ao lucro econômico que podem trazer à sociedade. Precisa-se reafirmar […] a confiabilidade na palavra da nossa IECLB, afirmada no Evangelho de Jesus cristo, que pregou a paz, o amor, a solidariedade e a dignidade de todas as pessoas e para todas as pessoas. Esta deve ser a nossa luta: promover a justiça social e a dignidade para todos os filhos e as filhas de Deus”.

As distintas formas de violência e exclusão afetam a vida das pessoas e a própria democracia. A polarização e a falta de diálogo na sociedade, de modo geral, mas também na IECLB, questiona nossa vida comunitária e desafia-nos conjuntamente para uma reflexão mais amadurecida e de muita escuta mútua. Isto nos convoca para momentos de conversa e construção coletiva, para que possamos encontrar, junto com nossas comunidades e grupos organizados, caminhos de esperança. Só assim será possível avançar em comunhão solidária. Reiteramos que o diálogo construtivo, porém, necessita de mecanismos e processos que incluam todas as pessoas através de metodologias de aproximação e mediação entre propostas e grupos plurais.

De nosso debate franco e respeitoso, extraímos propostas para continuarmos nesta busca urgente e necessária:

  • Reafirmar o papel da igreja de Jesus na sua opção pelas pessoas empobrecidas e vulneráveis;
  • Animar pessoas e comunidades com palavras firmes e alentadoras diante das incertezas e sombras que se abatem sobre o nosso país;
  • Fortalecer por vários meios os valores democráticos da paz, da justiça e do cuidado com a vida das pessoas e do meio ambiente, criação do Deus vivo;
  • Priorizar na vida comunitária a relevância do cuidado com as fontes de água e a defesa da segurança alimentar para todas as pessoas;
  • Providenciar metodologias práticas para trabalhar com grupos de base na igreja as questões aqui levantadas, favorecendo o diálogo com todos os grupos interessados sem discriminar quem quer que seja;
  • Favorecer espaços específicos para a participação da juventude;
  • Reforçar a conexão entre a vida comunitária e a sociedade, de tal modo que as pessoas assumam no cotidiano suas responsabilidades como cidadãs e membros da igreja;
  • Incentivar a criatividade litúrgica e o uso de símbolos nas celebrações comunitárias, bem como uma espiritualidade dinâmica e aberta aos dons do Espírito de Cristo;
  • Incentivar o fortalecimento de uma rede de solidariedade na IECLB (PPL, FLD, CAPA, COMIN, CML, Fórum de Mulheres da IECLB, e outros setores);
  • Incentivar as propostas de educação popular (materiais pedagógicos, produção artística, teologia popular) em todos os âmbitos da igreja, que inclua crianças, adolescentes, jovens e pessoas adultas, nas comunidades e grupos de serviço;
  • Tomar consciência de que – no discipulado de Jesus – somos enviados ao mundo para ser sal da terra, luz do mundo e fermento transformador (Mateus 5.13s; 13.33).

Em solidariedade fraterna sorória, assinam

PPL – Pastoral Popular Luterana  e FLD – Fundação Luterana de Diaconia

São Leopoldo, 28 de novembro de 2016.

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Mensagem Noticias

Sobre a Esperança

Carlos Rodrigues Brandão

 

 Sobre a Esperança
Mensagem para encerrar 2016 e esperar um “Ano Novo”

Há quem dentre nós talvez diga neste fim-de-ano: “este foi um ano para esquecer”.
Nenhum ano é para ser esquecido. Nenhum mês, nenhuma semana, dia ou minuto.
Recebi – como imagino que toda a gente recebeu – um sem número de mensagens sobre os “tristes acontecimentos de 2016”. Vários deles foram, crítica e corajosamente, bastante justos e necessários. Eu mesmo, em outro tom escrevi um deles. O longo escrito a que dei este nome: Viver sem temer.
Não quero fazer desta mensagem de final de ano (uma velha prática de longos tempos) mais um dos documentos de “análise da atual conjuntura”. Não quero trazer a tanta gente amiga e querida uma mensagem mais de olhar crítico sobre a política e a economia “deles”, junto com o peso de seus efeitos sobre todas e todos nós e, sobretudo, sobre mulheres e homens do povo. Dos muitos povos com quem convivemos de perto ou de mais longe. Lembro sempre nessas horas o que um dia Jean-Paul Sartre escreveu: “Uma coisa é o que fizeram de nós. Outra coisa é o que nós fazemos do que fizeram de nós”. Esta não é, portanto, uma mensagem de crítica a respeito “deles”. É uma mensagem de realista esperança em e sobre “nós mesmos”. Venho de lugares, venho de rostos, venho de gestos e de pessoas ao longo de 2016. E é a lembrança deles e delas o que me leva a escrever esta mensagem.
Venho de uma Escola Popular em um Assentamento do MST no Sul da Bahia. Venho de professoras de escolas dos “sem-terrinha”, e venho de famílias que no assentamento vizinho haviam acabado de receber os seus “lotes de terra”, e entre o temor e a esperança transportavam para eles os seus poucos trastes. Todos eles juntos, e mais os lotes de muitas terras conquistadas pelos camponeses do Brasil afora, são bem menores do que um único latifúndio das empresas do agronegócio. As mesmas que sobre as terras férteis do Sul da Bahia semeiam desertos de eucaliptos. Venho do Norte de Minas. Venho de Montes Claros e de encontros que aproximaram gentes de universidades, como eu, e pessoas de práticas populares. Pessoas de pele escura, entre indígenas e quilombolas, ao lado de homens e mulheres camponesas, povos do cerrado, da floresta e das águas. Pessoas que começam os seus encontros e congressos entre preces e “místicas” com as mãos abertas; e os encerram agitando para o alto, punhos erguidos, e gritando as palavras que deveriam calar os que fizeram do Brasil o que ele tem sido nestes tempos.
Venho de uma gente que em Passo Fundo reúne-se há anos para pensar e praticar coletivamente alternativas de uma “educação para a paz”, quando poderia estar encerrada em seus escritórios, escrevendo outro artigo destinado mais a aumentar um currículo vitae do que a dialogar com quem educa crianças, jovens e adultos no “chão da escola”. Venho de pequenas comunidades tradicionais do Espírito Santo. Ali, onde indígenas Tupiniquins e outros povos resistem como podem a nada menos do que à Aracruz, e a outras poderosas empresas do agronegócio. Lugar onde professoras da Universidade Federal e de Centros e Institutos Tecnológicos (mas profundamente humanos) tentam criar com jovens estudantes vindas “da roça” uma pedagogia da terra a serviço de uma transgressiva educação do campo.
Venho de “fábricas ocupadas” por operários da Argentina, e venho de “Bachileratos Populares” entre Lujan e Neuquén. Lugares de pobres onde, às vezes entre caixotes de madeira e toscas mesas improvisadas. jovens e adultos se reúnem para reaprenderem a ler e a pensarem juntos uma “outra história” do País e do Continente.
Venho de presos políticos. Em Medellín, depois de atravessar três portões trancados a cadeado cheguei na “Penitenciaria del Estado” a um local coletivo onde uma pequena equipe de presos políticos do Exército Popular de Libertação sonha inaugurar uma “Universidade Popular”. Venho de povos andinos que em suas línguas arcaicas nos desafiam a deixar de lado o mercado e viver a vida. E nos sussurram: Sumak Kawsay e os outros nomes que querem todos dizer uma mesma ideia: viver a “vida boa”, um “viver bem” solidário, oposto em tudo à “boa vida” com que o capital e a sua mídia nos mentem entre as mesmas falsas promessas de sempre.
Venho de tanto em um só ano. E bem sei que venho de apenas uma ínfima fração das vivências coletivas, dos momentos populares de insurgência, da persistente reconstrução de grupos de base, e de ações das quantas comunidades tradicionais e também dos movimentos populares. E venho também da presença ativista e solidária de instituições de apoio a alternativas e iniciativas de uma pluri-transgressão emancipadora. Venho de pessoas com quem aprendo a cada dia a calar o que sou, penso e possuo, para descobrir com elas a viver bem mais da esperança do que do medo.
Lembro que no dia 31 de agosto deste ano encerramos o Colóquio Internacional de Povos e Comunidade, em Montes Claros, com uma Passeata dos Mártires. Foi quando escrevi o texto “Viver sem temer”. Caminhamos ao redor de uma grande praça levando pequenos estandartes de mulheres e homens que nos últimos anos, apenas naqueles “sertões do Norte”, haviam sido mortos lutando por terra, território, justiça e liberdade.
Quase ninguém veio presenciar a nossa “caminhada”, e ouvir os nossos cantos e os gritos de nossas memórias. Televisão alguma estava presente e “canal” algum noticiou o que se vivia ali. Mas enquanto pelas janelas abertas das casas víamos de passagem nos aparelhos de TV os acontecimentos do “Congresso Nacional”, entre mãos abertas e punhos erguidos completamos a nossa volta pela praça.
Lembro-me de haver vivido algo semelhante há exatos 50 anos, em plena “ditadura militar”. Estar vivendo algo assim tantos anos depois, de forma alguma me traz um sentimento de “tempo perdido”. Ao contrário, apenas renova a certeza de que “eles passam”. E nós estamos e persistimos em “estar aí”, “de mãos abertas e de punho erguido”, ano após ano, década após década, geração após geração! Estamos aqui! Estamos por toda a parte. E estamos juntas e juntos uma vez mais. E mais do que as “sementes crioulas” que eu vi semana passada sendo jogadas nas terras de assentamentos do Sul da Bahia, creio que estamos unidos para semearmos também a coragem da insurgência de uma justa luta e, mais do que tudo, de uma inapagável esperança.
Saibamos crer em nós. Saibamos acreditar em nossa inabalável vocação de revisitar nossas vidas, de clarear nossas mentes, de não nos deixarmos colonizar, de aproximar os nossos corpos, de unir nossos braços, solidarizar nossas vidas, criar nossos destinose seguir adiante. Confiemos em nós. Saibamos varrer de nossas vidas o temor que o sistema tenta colocar em nossos corações, e saibamos viver do que é nosso: a coragem da esperança.
Baruch de Spinoza foi um pensador do século XVII. Judeu de uma família de origem espanhola expulsa para Portugal e, depois, para a Holanda, viveu lá a sua vida como um humilde “polidor de lentes”, e também a de um filósofo livre. Por causa de suas ideias, inclusive a respeito de deus, ele foi excomungado de sua comunidade judaica. É dele a passagem que, por falar sobre a esperança, eu desejo que encerre esta mensagem.

“Um povo livre se guia pela esperança mais do que pelo medo; o que está submetido se guia mais pelo medo do que pela esperança. Um almeja cultivar a sua vida. O outro, suportar o opressor. Ao primeiro eu chamo livre. Ao segundo, chamo servo” (Baruch de Spinoza, Tratado teológico político).

 

Rosa dos Ventos – no Sul de Minas
Carlos Rodrigues Brandão
Quase no fim do ano. Na quadra da Lua Nova

 

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Carta de Contagem

Nós, juventudes ecumênicas reunidas no Encontro Nacional “Desafios e possibilidades no cuidado da casa comum” realizado pela Rede Ecumênica da Juventude/REJU e pela Pastoral Popular Luterana/PPL vinculada a da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil/IECLB, entre os dias 12 a 16 de novembro de 2016, emContagem/MG, acreditamos que a oikumene deve expressar os encontros e a convivência entre as diferenças sociais, culturais e religiosas a fim de superar todas as formas de intolerância. Partilhamos, assim, nosso desejo e nossa luta por justiça, igualdade e dignidade a todasas pessoas que habitam essa casa comum tendo em vista a atual conjuntura em nosso país marcada pelo recrudescimento das vi
olações aos mais diversos direitos. Por conta disso, denunciamos:

  • Os casos de desrespeito às pessoas pertencentes às diversas manifestações religiosas e ataques aos seus lugares de culto que acometem principalmente as religiões de matrizes africanas e indígenas;
  • Grupos e setores cristãos que utilizam, de forma descontextualizada e sem diálogo com as diversidades humanas, valores religiosos e narrativas bíblicas para promover um fundamentalismo de cunho político que os permitem disputar e garantir seus lugares em espaços de poder em suas igrejas, na sociedade e nos legislativos e executivos;
  • Às violências contra a pluralidade de identidades de gêneros e sexuais  validadas por uma sociedade patriarcal, machista e misógina;
  • O golpe jurídico-parlamentar cujas decorrentes propostas visam à implementação de politicas motivadas pela sobreposição do interesse na expansão do lucro sobre a dignidade humana e que ameaçam os direitos sociais, humanos, trabalhistas, previdenciários conquistados pela população brasileira com a Constituição de 1988;
  • Às violações do direito à terra e ao território e à soberania alimentar e o genocídio dos povos indígenas, comunidades tradicionais e quilombolas, campesinos e povos das águas, dos campos e das florestas agenciadas pelos setores do agronegócio, grandes latifundiários e pelos grandes empreendimentos;
  • À PEC 55/2016 que propõe o congelamento por 20 anos nos investimentos do governo federal em diversas áreas e políticas sociais – educação, saúde, benefícios sociais, congelamento do salário mínimo – que atingem diretamente as camadas mais pobres da população brasileira;
  • À proposta de Reforma do Ensino Médio conduzida de forma verticalizada e não dialogada com os setores sociais interessados;
  • O Projeto de Lei denominado Escola sem Partido que tramita no legislativo e propõe que as educações básicas e universitárias deixem de ser pautadas pelo contraditório, pelas divergências de ideias, pela pluralidade e diversidade cultural e, o mais grave, pela laicidade do Estado;
  • A criminalização jurídica, política e midiática dos movimentos sociais e das ocupações nas escolas e nas universidades públicas que protestam de forma legítima e democrática contra as medidas propostas pelo governo Temer como a PEC 55/2016;
  • A impunidade do Grupo Samarco (Vale/BHP), do Governo do Estado de Minas Geral e do Governo Federal responsáveis pelo crime ambiental que matou pessoas e destruiu ecossistemas por completo na região do Vale do Rio Doce, evento que completa um ano;
  • O ataque sofrido pela Pastoral da Juventude da Diocese de Itabira/Coronel Fabriciano por grupos católicos que se opõem a perspectiva do diálogo inter-religioso, na ocasião do Dia Nacional da Juventude/DNJ, ocorrido na cidade de Timóteo/MG;
  • Os diversos casos de abuso sexual e de estupro de jovens, crianças e mulheres que atestam a validade da cultura do estupro em nossa sociedade;
  • A retomada de estereótipos sobre as mulheres e seus corpos para deslegitimar sua participação na política confinando-as novamente ao imaginário de belas, recatadas e do lar validando, assim, diversas formas de violência àquelas que ocupam espaços de decisão e de poder na sociedade;

Diante do nosso testemunho público e nossa prática ecumênica contra essas e tantas outras violências que comprometem uma casa comum de vida plena a todas as pessoas, estabelecemos para nossa agenda nacional no biênio 2017/2018 o “Estado laico e superação das intolerâncias” como questão articuladora dos eixos temáticos que pautarão nossas incidências políticas, a saber: Juventudes, Desenvolvimento e Justiça socioambiental; Juventudes, Sexualidades e Lutas feministas; Juventudes e Democratização da educação e Enfrentamento ao Racismo.

Assumimos assim, um lugar de resistência constante diante de formas homogêneas e fundamentalistas de entender e viver a espiritualidade no contexto atual. Esse lugar implica em disputas de sentidos e de práticas no campo político cotidiano. Também significa vivermos maneiras que evidenciem o amor e a justiça que são os imperativos que movem nossa fé plural e diversa e que alimentam nossa caminhada de luta.  Nessa caminhada conjunta nos reencantamos com novas utopias acreditando que as nossas espiritualidades dançantes transcendem os muros institucionais.

Contagem/MG, 23 de Novembro de 2016.
Rede Ecumênica da Juventude – REJU
Pastoral Popular Luterana –PPL

Apoio:
Fundo Ecumênico de Solidariedade, Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), Fundação Luterana de Diaconia (FLD), Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, Minas Gerais, SOS Corpo.

Parceria:
Zwei Arts, Fernanda Scherer Fotografia e Vídeo