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CARTA PASTORAL 2/2021 Junho 2021

“O inepto não compreende, e o estulto não percebe isto:

ainda que os ímpios brotam como a erva, e florescem todos

os que praticam iniquidade, nada obstante, serão destruídos para sempre”.

Salmo 92.6s

“Minha preocupação é com aquelas formas de soberania
cujo projeto central não é a luta pela autonomia, mas
‘a instrumentalização generalizada da existência humana
e a destruição material dos corpos humanos e populações’”.
Achille Mbembe, filósofo camaronês

Amigas e amigos, companheiras e companheiros de fé e caminhada,
No último 19 de Junho o Brasil ultrapassou as 500 mil pessoas mortas pelo Covid-19, uma marca terrível, um verdadeiro horror se levarmos em conta as milhões de pessoas enlutadas que choram essa perda irreparável. Difícil encontrar palavras que nos consolem, que nos ajudem a elaborar tanto luto, tanta perda, tanta ausência, tanta dor, tanto desamparo. Já temos entre nós uma infindável lista de crianças órfãs, de famílias destroçadas, de amores rompidos irremediavelmente. E, no entanto, como uma pastoral da esperança, a PPL não pode se calar.
Primeiro, cabe dizer e reafirmar nossa total solidariedade com as famílias que choram em todo o país, mas também nas comunidades da IECLB. Irmãs e irmãos de fé, colegas de ministério, lideranças e pessoas colaboradoras perderam a vida. É experiência desconcertante e destruidora da comunhão. Por isto não pode ficar perdida em nossas rotinas. Precisamos fazer memória dessas pessoas, escrever e registrar seus nomes em nossas vidas, livros de registro, celebrações. No dia 22 de junho, em Porto Alegre, entidades ecumênicas e inter-religiosas se manifestaram colocando na Praça da Redenção 500 velas para registrar este momento de LUTO coletivo e nacional. Também na igreja temos de repetir o gesto, abrindo espaço comunitário para a memória, a oração e o canto consolador, como fez uma das comunidades de Joinville quando chegamos aos 300 mil mortos. Isto vai nos ajudar na elaboração do luto. Será um momento de reafirmar a nossa fé e a nossa decisão de lutar pela vida das pessoas, de lutar por vacina para todo o povo brasileiro. Esta luta é de todas as pessoas que se
confessam testemunhas da ressurreição! Nada pode justificar neste momento trágico da vida nacional a nossa omissão.
Segundo, nesses tempos sombrios em que um governo aposta na morte e no desprezo por sua gente, confirma-se o que A. Mbembe, o filósofo camaronês que formulou o conceito da necropolítica, a política da morte, afirmou na citação acima: quando um governo de um país decide deliberadamente desprezar medidas como providenciar em tempo vacina para toda sua população, defender o distanciamento social e promover o uso da máscara, medidas que poderiam salvar muitas vidas, chegamos a uma situação-limite: não é justo, não é razoável, não é admissível suportar um governo inepto, iníquo, ímpio. Toda impiedade tem limites. Este limite chegou.
Terceiro, o que se pode esperar de comunidades de fé que proclamam a vida plena que Deus nos oferece gratuitamente em Jesus, o Cristo? Se Jesus é a “Vida do Mundo” (O povo canta, 158s) como afirma a bela canção que o reverendo anglicano Jaci Maraschin nos legou faz tempo, Deus espera de nós que defendamos a vida em todas as suas dimensões. Hoje no Brasil, isto significa: a) vacina para todas as pessoas e o mais rápido possível; b) garantia de um auxílio emergencial que garanta o mínimo para as mais de 15 milhões de pessoas desempregadas e suas famílias; c) campanhas massivas para uso de máscaras, restrições severas à circulação de pessoas, apoio a pequenas e médias empresas, garantia de crédito para a agricultura familiar e produção de alimentos; d) defesa intransigente aos povos e territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Quarto, de uma comunidade cristã se espera também ações de solidariedade, de apoio, de consolação nos momentos mais trágicos. Muitas comunidades evangélico-luteranas têm demonstrado este carisma. Precisamos apoiá-las, reforçar suas ações e incentivar medidas concretas de garantia da vida e da saúde das pessoas, especialmente as mais vulneráveis. De forma surpreendente, vamos descobrir que – nesse caminho – o Deus de toda a graça, compassivo e cheio de misericórdia estará conosco e até mesmo nos esperando junto às pessoas de quem nos aproximamos.
Como afirmou o Salmo 92, os ímpios podem brotar como erva do campo e suas políticas podem florescer como flores que matam, mas irão perecer! Serão destruídos, mais dia, menos dia. Ora, o Deus da Paz é também o Deus da Justiça. Que este Deus nos cubra com sua graça e bênção!


Coordenação Nacional da PPL

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