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CARTA PASTORAL 04/2020 – Em tempos da Covid-19

Sábado de Aleluia- Tristeza, solidão e reflexão
Irmãs e irmãos das comunidades de fé,
Amigos e amigas da caminhada!

Há pouco vivenciamos o período da Paixão e da Páscoa nas comunidades cristãs. Temos tido alguma dificuldade com o Sábado de Aleluia. Este dia, que está entre a Sexta-Feira Santa e o Domingo de Páscoa, nos causa algum desconforto. Por que? Porque o tema desse dia é um Jesus de Nazaré morto. Nossa dificuldade está em compreender o por quê o tema desse dia é um Jesus de Nazaré morto. Quer dizer, a dificuldade está em suportar essa realidade nua e crua, falar dela, meditar sobre ela, interpretá-la, sem fugir para a Páscoa antes de a Páscoa chegar.
A comunidade que havia seguido Jesus estava sofrendo a realidade da sua morte sem a existência de uma perspectiva de ressurreição. Ela não tinha escolha: precisava lidar com os fatos assim como eles estavam se apresentando (cf. Lucas 24.13ss) Por isso, essa comunidade, que havia aprendido a ter esperança em dias melhores por causa daquilo que Jesus lhes havia ensinado acerca da proximidade do Reino de Deus, estava calada, abatida, frustrada, mergulhada num profundo luto. Experimentava o fim de um projeto.
Por isso, o Sábado de Aleluia é um dia de tristeza e solidão. Conta a tradição que Maria, mãe de Jesus, que na Igreja Católica era conhecida como “Nossa Senhora das Dores” por causa das dores que lhe causou a morte cruel e injusta de seu filho, recebeu também o título de “Nossa Senhora da Solidão” justamente por causa da sua amarga experiência vivida naquele sábado. Não se deve subestimar o tamanho do sofrimento causado pela solidão.
Aquele sábado também é sinônimo de caos: na cabeça e no coração das pessoas reinava grande confusão quanto ao que estava acontecendo. Como entender os fatos? Em quem acreditar? Como agir e como se comportar diante desta nova realidade?
As forças do mal que causaram todo o sofrimento vivido agora no Sábado de Aleluia eram também uma ameaça a quem havia seguido Jesus. Por isso, este dia se caracteriza também pelo medo. Medo de um destino semelhante ao de Jesus. O maior sofrimento naquele sábado foi a experiência do vazio existencial. Hoje dizemos que o sentimento de vazio existencial é aquela fase do luto em que nos encontramos como gente sozinha após o sepultamento, amargando a dor da perda definitiva de uma pessoa amada.
É importante lembrar que a comunidade que vivenciou o Sábado de Aleluia não sabia que poderia acontecer uma ressurreição, embora Jesus possa lhe ter dado alguns sinais a respeito. E mesmo ele, no alto da cruz, bradou o grito de angústia; “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” (Mateus 27.46; Marcos 15.34). Da experiência daquele sábado não faz parte o conhecimento de uma mudança da realidade dada. Por isso, trata-se de uma situação sem perspectivas de solução.
Quando falamos de uma situação sem perspectivas de solução, estamos falando de uma situação de cruz. Situações de cruz continuam acontecendo hoje também. Os sábados de aleluia continuam sendo experiência real para muitas pessoas. Por isso, não podemos ignorar a cruz ou reduzir o tamanho da sua realidade. Aí reside a nossa dificuldade na Semana Santa: temos dificuldade de “estacionar” no Sábado de Aleluia. É difícil suportar o peso desse dia. Muito apressadamente passamos a apontar para a Páscoa. É como dizer: Sim, há sofrimento, mas logo vai passar. A Teologia da Cruz pergunta: e se não passar? Ou se demorar muito a passar? Ou ainda se alguém de nossas relações próximas, ou nós mesmos, formos afetadas e afetados irreversivelmente pelo mal?
Uma pergunta importante é como a comunidade de Jesus sobreviveu ao Sábado de Aleluia. Como ela lidou com a cruz? Ora, em pleno Sábado de Aleluia, ou em função dele, aconteceram três fatos nos quais podemos nos inspirar conforme a narrativa dos evangelhos: 1) a comunidade de Jesus, representada pelas mulheres (Marcos 15.40-41 e 16.1), em plena crise, em plena situação de medo, solidão, caos e vazio existencial, guardou o sábado de acordo com o mandamento da fé judaica, e descansou (Lucas 23.56); ou seja, exercitou a espiritualidade; 2) essas mesmas mulheres que já haviam servido Jesus durante o seu ministério, praticando a diaconia (Marcos 15.40-41), continuaram a exercitar a solidariedade, comprando aromas para embalsamar o Jesus morto e lhe oferecer um sepultamento digno, uma prova de amor ao mestre; 3) José de Arimatéia, um homem vinculado ao sinédrio, ao poder religioso, que era discípulo de Jesus, se ofereceu como voluntário para sepultar o corpo do mestre.
A comunidade de Jesus conseguiu fazer a ponte entre a Sexta-Feira Santa e o Domingo de Páscoa, praticando a solidariedade, mesmo que em relação a uma pessoa falecida. Esta diaconia estava firmemente alicerçada na espiritualidade que ela aprendeu com seu mestre, a espiritualidade do amor e do serviço gratuito.
Como enfrentar o Sábado de Aleluia em tempos de Covid-19, que trouxe os sofrimentos da solidão, do caos, do medo e do vazio existencial? Para nós da Pastoral Popular Luterana isto significa o desafio de “estacionar” nessa realidade e enfrentá-la com os recursos que nos são dados, sem fugir apressadamente para soluções milagrosas. Para esse enfrentamento, apeguemo-nos firmemente ao exercício de nossa espiritualidade através da oração, da intercessão, da meditação, da leitura bíblica, buscando consolo e fortalecimento na Palavra de Deus. Estaremos, assim, descansando em Deus. E, a partir daí, praticar a solidariedade em relação às pessoas que precisam de ajuda, como fizeram as mulheres e José de Arimatéia. Que estes tempos de cruz nos ensinem, de forma renovada, a amar a Deus e ao próximo como Jesus ensinou ao seu grupo de discípulas e discípulos.

Coordenação Nacional da PPL – 28 de abril de 2020

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