Cartas Pastorais

Encontro Nacional de Lideranças e Ministros e Ministras PPL em Cascavel – PR. 16 a 19 de Julho/22

Boa Vista do Buricá, 28 de abril de 2022.

Aos/às
Associados/as e simpatizantes da PPL
Lideranças comunitárias, sindicais, movimentos populares e sociais

Convite

A PPL estará promovendo o Encontro Nacional de Lideranças e Ministros e Ministras nos dias 16 a 19 de junho de 2022, tendo por local as dependências da Casa de Retiros de Cascavel, tendo por endereço a Rodovia BR 467 – Km 100 – Barro Preto, Cascavel – PR O encontro iniciará às 18h30 horas do dia 16 de junho de 2022 e terá o término no dia 19 de junho de 2022.

Conforme o Estatuto da PPL, Capítulo VI, Art. 15: O Encontro Nacional da PPL é a reunião de pessoas associadas, simpatizantes e representantes de grupos de trabalho da PPL, do movimento social e comunitário, visando a celebração, a troca de experiências, a reflexão pastoral, a avaliação da caminhada e a indicação das prioridades de ação da PPL.

O tema do encontro é “Educação Popular e Ambiental” e vamos nos deixar conduzir pelo tema bíblico de Romanos 8.22: “… a criação toda geme e sofre dores de parto até agora” . Para o tema contaremos com as assessorias da Dra. Naira Estela Roesler Mohr, Doutora em Educação, com estudos em Educação Popular, Feminismo e Agroecologia; Dr. Matheus Fernando Mohr, Licenciado em Ciências Agrícolas, Especialista em Agroecologia, Especialista em Educação do Campo e Desenvolvimento, Mestre em Agroecossistemas, Doutor em Educação Científica e Tecnológica; e Pastor Dr. Valério Guilherme Schaper, pastordaIECLB,doutoremteologiaeprofessornaFaculdadesEST, São Leopoldo, atuando nos cursos de graduação e pós-graduação, responsável pelo Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Religião e pelo Grupo de Pesquisa em Ética Contemporânea. É Pró-reitor de Gestão (Gestão 2019-2022) e coordenador do Instituto Sustentabilidade América Latina e Caribe.

Solicitamos que as inscrições ou a confirmação de participação ocorra até o dia 10 de junho pelo link https://forms.gle/RvdF7VHkiCKiWt6X9.

Neste ano haverá uma taxa de inscrição no valor de R$ 250,00 para membros da PPL e de R$ 150,00 para estudantes. A inscrição não deveria impossibilitar ninguém de participar. Havendo alguma dificuldade, entrem em contato com a coordenação nacional: Coordenador Nacional de PPL, P. Renato Küntzer,

PASTORAL POPULAR LUTERANA – PPL

IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL

renatok06@hotmail.com ou WhatsApp +55 55 9710-1990 e parana@pastoral.org.br.

É necessário que tragam roupa de cama, cobertor, travesseiro, toalha, material de higiene pessoal, uma garrafa de água da sua região, Bíblia e repelente. Visto que o encontro é uma construção coletiva, um pedido especial a quem toca algum instrumento musical, que traga o seu instrumento musical.

Lembramos que no sábado, dia 18 de junho de 2022, a partir das 19h30 acontecerá a Assembleia da PPL, cuja convocação estará sendo enviada aos associados e associadas.

Esperamos ansiosamente e cheios de esperança pela presença de vocês.

Coordenação Nacional da PPL P. Renato Küntzer

Cartas Pastorais

Carta Pastoral 03/2022 Páscoa – Cristo vive!

Carta Pastoral 03/2022 Páscoa – Cristo vive!
Amigas e amigos, irmãs e irmãos de fé!
Foram dias difíceis, pesados, cheios de dores e cruzes. Mas foram dias em que Jesus de Nazaré manteve sua firmeza, coerência e vontade inabalável de servir às pessoas com as quais se misturava , questionando e transformando as complicadas leis em uma única proposta: o amor. O amor de uns para com os outros, de umas para com as outras. Ele afirmou: “O meu mandamento é este: que vocês amem uns aos outros assim como eu amei vocês” (João 15.12). Qual a consequência de um tal amor? Jesus adiantou ao prevenir seu pequeno grupo de discípulas e discípulos: “Ninguém tem maior amor do que aquela pessoa que dá a sua vida em favor de seus amigos e amigas” (João 15.13) .
No seguimento de Jesus de Nazaré, ousamos afirmar que diversas vezes Jesus caiu e entregou sua vida sob o peso das cruzes do nosso tempo, as cruzes de mais 660 mil vidas ceifadas pela Covid-19, as cruzes plantadas nas guerras que hoje desgraçam a vida dos povos na Somália, no Iêmen, na Síria, na Ucrânia, mas também as guerras contra os pobres em nosso país, especialmente jovens negros, mulheres que sofrem o feminicídio, os povos indígenas e quilombolas. Todas essas vidas humanas são sacrificadas em nome do deus Mercado e das corporações que nos dominam. São essas forças políticas e econômicas que sacrificam milhares de vidas nas periferias das cidades, nas zonas rurais, entre os povos tradicionais agredidos em seus territórios e ambientes ecológicos. Quando olhamos para a cruz de Jesus e meditamos sobre sua Paixão, precisamos abrir bem os olhos para enxergar nesses sofrimentos inocentes a paixão acontecendo hoje entre nós. A cruz continua a ser uma realidade gritante. Por isso, gritamos com Jesus: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste” (Mateus 27.46).
Sendo honestos conosco e diante de Deus, precisamos confessar: nós também continuamos a erguer cruzes a cada dia nas mais diversas situações. Por isso temos que ouvir em cada domingo da Páscoa o alerta que nos tira do ambiente das mentiras e da violência cotidiana e que soa claro e alto: “Por que vocês estão procurando entre os mortos quem está vivo?” (Lc 24.5b). E com as mulheres amigas de Jesus que foram as primeiras a testemunhar: “Ele vive!”, necessitamos seguir persistentes e corajosos, questionando a atual cultura da morte que insiste em acomodar-nos ao nosso cotidiano. Este é o convite à conversão cotidiana que a Páscoa nos faz.
A Páscoa é uma mensagem de salvação, de libertação das sombras da morte para a caminhada da Vida. Por isso ela nos fortalece para resistir e lutar pela PAZ, num mundo cercado de violência estrutural. A Páscoa de Jesus, que vence a cruz da maldade, nos torna um povo animado e alegre que anuncia a alegria do evangelho: Jesus vive! Esta fé nasce da Cruz e nos levanta na Páscoa quando nos encoraja a questionar as razões de tantas pessoas louvarem a cultura da morte baseada nas armas e no ódio ao outro. A Páscoa nos convida a superar o egoísmo infeliz, o preconceito contra quem é diferente de nós, a desonestidade de quem só pensa em seus próprios lucros, a violência gratuita. O Jesus ressuscitado pergunta: “Como vocês demoram para entender e para crer …” (Lucas 24.25) e ainda, “por que há tantas dúvidas na cabeça de vocês?” (Lucas 24.38).
Páscoa é Deus quem faz acontecer. É o Espírito vivo do Ressuscitado que nos faz experimentar já agora, em meio a este mundo caótico, as primícias do Reino de Deus, do amor feito partilha, da esperança que não falha, da fé que move montanhas. A proposta de Jesus vive. Vivamos esta Páscoa redobrando nossa fé na caminhada em defesa da vida de todas as pessoas e da nossa Terra comum, igualmente em sofrimento.
Coordenação Nacional da PPL Páscoa 2022

Cartas Pastorais

“Nunca mais!”

PASTORAL POPULAR LUTERANA – PPL

IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL


Carta Pastoral 2 – 2022

O que é que o Senhor pede de ti, ó ser humano, senão que
pratiques a justiça e ames a misericórdia,
e andes humildemente diante do teu Deus?
Miquéias 6.8

Amigas e amigos, povo das comunidades,

Como parte da Comunidade viva que segue o testemunho do Cristo Crucificado, aquele que exaltou as mulheres e as crianças, que se identificou com as pessoas humildes e perseguidas, que expulsou os adoradores do poder e do dinheiro do Templo, que condenou a tortura, a violência, a usura, o falso testemunho e a covardia, que foi torturado e morto pelos dois poderes estabelecidos de sua época, o religioso e o político, acabando na morte de cruz como um inocente, ficamos estarrecidos diante dos últimos acontecimentos do final do mês de março de 2022 em nosso país.
Por isso e como testemunhas do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e em fidelidade a Ele, viemos a público, com temor e tremor diante do Deus da Vida e da Justiça, para esclarecer e denunciar o que segue:
1. O dia 31 de março de 1964 não foi o início de uma revolução que tinha como escopo defender a democracia, como quer fazer crer a nota do Ministério da Defesa sob a batuta do general Braga Neto. O 31 de março daquele ano constitui um dos capítulos mais sangrentos e tristes da história nacional. A Ditadura no Brasil, sob o comando dos militares a serviço de forças econômicas nacionais e estrangeiras, em conluio com empresários e a mídia corporativa, assassinou, torturou e violentou milhares de brasileiras e brasileiros, como testemunham pesquisas acadêmicas nacionais e mesmo dos EUA, baseadas em documentos fidedignos. A Ditadura de 1964 fechou o Congresso Nacional e todas as instituições que defendiam o Estado Democrático de Direito. Solapou as liberdades, censurou, perseguiu e matou aqueles e aquelas que se opunham ao regime totalitário e violento. A Ditadura, ao contrário do que proclamam seus porta-vozes atuais, defendeu e implementou a violência contra os próprios brasileiros e brasileiras. A violência política é o fim da liberdade e do embate político. A tortura é o contrário da democracia. A morte e perseguição política é a morte da ética e de qualquer resquício do Estado Democrático de Direito. Portanto, a nota de Braga Neto, que compara a ditadura a um processo democrático, é totalmente infundada e mentirosa. Não há nenhuma possibilidade de se comparar Ditadura com um processo democrático. A memória verdadeira de nossa história tem nomes e sobrenomes, que são justamente as centenas de vítimas mortas ou desaparecidas pelo regime civil-militar imposto a ferro e fogo. Como pessoas cristãs que seguem o Deus da vida, repudiamos as mentiras e declaramos que não iremos esquecer esses fatos, nem deixar que nossa história seja distorcida.
2. Por outro lado, nos deparamos também com denúncias de ações criminosas no Ministério da Educação, que culminaram com o afastamento do Ministro Milton Ribeiro, o qual se apresenta como Pastor e Teólogo evangélico (é de tradição presbiteriana). Através de um áudio vazado, o então Ministro disse claramente que, a pedido do Presidente da República, se deveria favorecer certas igrejas e alguns pastores escolhidos com as verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o que configura delito grave e fere a Constituição. Por conta de possíveis desvios de verba pública, essas pessoas podem ser enquadradas nos crimes de tráfico de influência e corrupção passiva, no mínimo. Em vista da gravidade desses fatos, senadores de vários partidos irão pedir a abertura de uma CPI do MEC. Inclusive, “as denúncias mais recentes chegam ao ponto de indicar o pagamento de propina com barras de ouro que totalizaria R$ 300 mil a título de liberação de recursos”, segundo fonte do Senado Federal. Enquanto ainda choramos pelas mais de 660 mil vítimas da Pandemia da Covid-19, pela situação financeira do país que voltou a estar no mapa da pobreza, por causa do escandaloso desemprego que afeta milhões de pessoas e suas famílias, com uma inflação de dois dígitos, com pessoas nas filas dos ossos por não ter o mínimo para comer, não podemos ficar omissos e calados diante do que fazem esses adoradores de bezerros de ouro, que buscam se enriquecer com o dinheiro público que deveria ser utilizado nas escolas brasileiras com nossas crianças e jovens. Não por acaso, milhares de escolas públicas viram sumir os alimentos da agricultura familiar que lhes chegava com as verbas da Merenda Escolar, o que compromete a saúde e a vida de milhões de crianças país afora.
Assim, como discípulas e discípulos de Jesus Cristo libertador, conclamamos as pessoas cristãs de todas as igrejas que confessam Jesus como Senhor da Vida Abundante, e mesmo pessoas de boa vontade, nesse tempo de Paixão e Páscoa, a seguir o caminho de Jesus, como está descrito pelo profeta Miqueias :
“Ele te declarou, ó ser humano, o que é bom e o que é que
o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça e ames a misericórdia,
e andes humildemente com o teu Deus (6.8)

Não podemos concordar que falsos pastores, adoradores de bezerros de ouro, falem e se apresentem como evangélicos e mensageiros do Senhor Jesus! Quanto a nós, que nos convertamos e pratiquemos a justiça e a misericórdia como nos ensina o profeta. E assim aprendamos a andar em humildade diante de Deus e das pessoas, anunciando a Boa Nova do Amor de Jesus, que não se coaduna com a violência de qualquer tipo de Ditadura, tampouco com o desvio de verbas públicas.
Coordenação Nacional da PPL – Abril de 2022

IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL

Cartas Pastorais

Carta Pastoral 01/2022 – Vacina para todas as crianças!

“Então lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse. Mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam, porque delas é o reino de Deus”. Mateus 10.13s.

Amigas e amigos, companheiras e companheiros de fé e caminhada.
A mensagem do evangelho é clara. Criança tem prioridade sempre na vida e mensagem de Jesus. Porque das crianças é o Reino de Deus. Por isso ele fica indignado quando seus amigos mais íntimos as excluem da bênção e impedem que mães e pais lhe tragam crianças para receberem sua bênção. A partir do gesto de Jesus aprendemos que bênção significa vida, aceitação da parte de Deus, acolhimento e proteção contra todos os males. Daí se pode entender claramente a indignação de Jesus contra seu grupo que cria empecilhos ou coloca obstáculos às crianças.
As palavras e ações de Jesus orientam o nosso jeito luterano de ser comunidade, caracterizando esse compromisso em sermos portadores de uma boa notícia. Ao atualizar esta narrativa central do evangelho envolvendo Jesus, e assumirmos a responsabilidade pelo testemunho público do evangelho para os dias de hoje, é inadiável manifestar o apoio à vacinação ampla e irrestrita das crianças do Brasil, sobretudo entre as idades de 5 a 11 anos, assim como todas as pessoas das demais idades.
Denunciamos que tanto o Ministério da Saúde quanto o Ministério da Cidadania prestam um desserviço à sociedade, aos pais e mães, às crianças e à saúde pública com atitudes que beiram o crime contra o que preconiza a Constituição Federal de 1988 (Artigos 5 e 6) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). As leis são claras no que se refere à vacinação de crianças e adolescentes. Quem conspira contra a vacinação, semeia dúvidas, menospreza os dados amplamente divulgados a respeito das crianças acometidas e vítimas da Covid 19, é passível de responder por crime de responsabilidade.
A comunidade cristã pauta sua vida e ação pelo evangelho de Jesus, aquele que afirma “Quem não receber o reino de Deus como uma criança, de maneira nenhuma entrará nele” (Mateus 18.15). Defendemos que a vacinação para crianças e adolescentes seja, além de disponibilizada, motivo de campanha de esclarecimento e de informações claras e precisas, combatendo as mentiras e o negacionismo, conclamando mães, pais e responsáveis ao atendimento deste direito e compromisso de cidadania. O Brasil já conta com cerca de 630 mil mortos na pandemia da Covid-19 e um número de mais de 25 milhões de casos conhecidos. Segundo dados do Instituto Butantan (07/01), mais de 1.400 crianças de 0 a 11 anos faleceram devido à Covid 19, enquanto outras 2.400 de Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica, associada à Covid 19. Infectologistas e epidemiologistas alertam para o crescimento de casos e de mortes com a nova variante ômicron. Ela só não trará maiores tragédias por causa do avanço da vacinação que vem alcançando cada dia mais pessoas no país.
Em boa hora, a Presidência da IECLB, em Nota Pública de 28 de janeiro passado, manifestou o seu apreço pelo esforço extraordinário de milhares de cientistas na pesquisa e produção das vacinas no mundo inteiro, num curto espaço de tempo. Reafirmando que o Brasil se tornou referência internacional com seu PNV – Plano Nacional de Vacinação, as autoridades pastorais da IECLB conclamam comunidades, mães, pais e todas as pessoas de fé a exercitarem “o direito e a responsabilidade de levar crianças e adolescentes para vacinar”. A orientação é muito oportuna e vem ao encontro do desejo de proteger nossas crianças e famílias contra a proliferação de um vírus que tem causado tristeza, morte e luto para milhares de nossas irmãs e irmãos.
A PPL se solidariza mais uma vez com essas famílias, se soma à chamada da Presidência da IECLB e conclama igualmente a que mães, pais, avós, responsáveis levem com toda a urgência e sentido de proteção à vida suas crianças aos locais de vacinação. Neste momento, esta ação de cuidado representa um sinal do reino de Deus no meio de nós.
Coordenação da PPL – fevereiro de 2022


Pastoral Popular Luterana
Rua Humaitá, 1030 – Bairro Bortolanza (Morro das Antenas) – 89887-000 Palmitos, SC (55) 9710 1990
http://pastoral.org.br/
PASTORAL POPULAR LUTERANA – PPL
IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL

Cartas Pastorais

CARTA PASTORAL PARA O NATAL – 2021 O Natal da Lua e da Estrela

Foi numa noite de lua cheia, nas veredas do grande sertão nordestino, que se deu o fato … Riobaldo, personagem do romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, atravessava os ermos da caatinga, quando ouviu os gemidos de uma parturiente. O som da dor vinha de um misérrimo casebre, enterrado na solidão. A mulher estava só, com suas dores e seu ventre inchado.

As andanças de Riobaldo e sua vida dura do cangaço o haviam preparado mais para ser um agente funerário, não para ser um obstetra. Mas naquela noite o jagunço não teve escolha. A força irresistível da vida havia convertido Riobaldo em parteira. Foi assim que, pelas mãos de um jagunço, nos cafundós do sertão nordestino, mais uma criança saltou para dentro da vida.

A essa altura da narrativa, ao som do choro do recém-nascido, Guimarães Rosa coloca as seguintes palavras na boca do extasiado Riobaldo: “Um menino nasceu. O mundo tornou a começar. E saiu para as luas …”. O milagre do recomeço do mundo acontece a cada parto. Sim, o mundo recomeça todas as vezes que, vencendo tantas forças contrárias como só no sertão nordestino é possível, a vida sobrevive e consegue reiniciar sua teimosa trajetória. O sertão nordestino é perigoso para a vida.

Nas veredas dos nossos urbanos, porém, não menos perigosos sertões, tornamo-nos jagunços cada vez mais cruéis, rudes e selvagens. O nosso jeito de viver, egoísta e intolerante, torna este sertão do século 21 tão ou mais perigoso para a vida do que o de Riobaldo e de toda a jagunçada da turma do Lampião. Extorquimo-nos mutuamente, violentamo-nos, mutilamo-nos, agredimo-nos, ignoramo-nos, executamo-nos com fúria tal que deixaria atônito o mais impiedoso dos cangaceiros. Nossas armas são palavras … Nossas “balas” são imagens, preconceitos, estereótipos.

Mas, no meio de tudo isso, há noites enluaradas. E em noites enluaradas, como aquela que banhou aquele casebre, tudo pode acontecer. Nossas crendices dizem que, numa noite assim, há homens que viram lobisomens e vagam pelo sertão, destilando horror e morte. Mas, na história de Guimarães Rosa, o luar do sertão transformou Riobaldo completamente. Fez daquele ser embrutecido pela crueza do cangaço um anfitrião terno, pronto para acolher nos braços a reinvenção do mundo. Uma criança recém-nascida transformou o jagunço em um ser capaz de enternecer-se.

O natal é uma noite iluminada por uma estrela. Numa noite fria e cheia de exclusão a luz dessa estrela ilumina uma estrebaria, onde se ouvem os gemidos de uma frágil mulher. 

Cada uma e cada um de nós é confrontado com a incontornável necessidade de ajudar neste parto … como Riobaldos embrutecidos por este mundo que nega a justiça e asfixia a paz.

Que o encontro com esta estrela e com aquela mulher em dores de parto na estrebaria de Belém nos transforme também, como Riobaldos, da brutalidade à ternura. Que possamos dizer, como Riobaldo: “Um menino nasceu. O mundo tornou a começar”! Deixemos que a lua e a estrela dessa noite única na história nos transforme em anfitriões da vida. Anoitecemos lobisomens e feras de todo tipo.

O Natal pode nos fazer amanhecer parteiras da humanidade. Um pequeno menino, deitado nas palhas da manjedoura, tem o poder de amolecer nossos duros corações, transformando egoísmo em solidariedade, medo em coragem, desespero em esperança, vazio em sentido de vida. Que o sentido do nosso ESPERANÇAR também nos faça, como Riobaldo, “sair para as Luas”.

Texto do P. Clóvis Lindner

(Por ocasião do Encontro do Fórum ESPERANÇAR – Diversidade, Diálogo e Democracia na IECLB, em 08.12.2021)

Abençoado tempo de Natal e Novo Ano!

Coordenação Nacional da PPL 

Cartas Pastorais

PASTORAL POPULAR LUTERANA – PPL

Irmãs e irmãos na caminhada da resistência e da justiça


Que tempos difíceis e cruéis vivemos no Brasil de nossos dias! Muitas mulheres em nossas igrejas vêm sendo ultrajadas, perseguidas, caluniadas por sua defesa da dignidade das suas irmãs. Isto é inaceitável, venha de quem vier. Não é o que aprendemos de Jesus, o bom pastor que dá a vida por seus amigos e amigas. Dele aprendemos outras atitudes, gestos de amor, compaixão e aceitação incondicional (João 8.1ss). Desta vez, porém, chegamos ao ápice da desfaçatez. Quando a Pastora Odja Barros da Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió, AL, abençoou o matrimônio de duas jovens fieis de sua comunidade, além de ser ofendida com as palavras mais abjetas, foi ameaçada de morte. Como é possível que tenhamos chegado a este limite impensável neste país?


É hora de repensarmos em profundidade nossa fé e vivência do evangelho de Jesus. O apóstolo Paulo – teólogo da graça de Deus – foi muito claro ao escrever para a comunidade de Roma: “A ninguém fiqueis devendo cousa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama ao próximo tem cumprido a lei” (Romanos 13.8). Pedro igualmente ensinou as comunidades que pastoreou: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados” (1 Pedro 4.8). Estas recomendações apenas reverberam o ensino de Jesus e o que João escreveu em sua Primeira carta às comunidades da Ásia menor: “Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1 João 4.16).


Uma comunidade cristã se destaca por ser acolhedora, generosa e cheia de amor mútuo; jamais julga por antecipação. O julgamento pertence a Deus. E ele usa de misericórdia para com todas as pessoas que depositam confiança nele. A Igreja Batista do Pinheiro manifesta grande abertura com sua acolhida e bênção para com duas jovens fieis que desejam viver juntas o amor que as uniu. Isso coloca esta igreja no caminho de Jesus e do Deus de Amor.


A PPL – Pastoral Popular Luterana se solidariza de forma pública e irrestrita com nossa colega e irmã Odja Barros bem como com sua comunidade. A elas nos sentimos unidos pela mesma fé, pelo mesmo amor e mesmo propósito de viver nossa cidadania com respeito por todas as pessoas amadas pelo Deus vivo.
Que as ameaças sejam esclarecidas pelas autoridades de segurança da cidade de Maceió e seus responsáveis devidamente enquadrados nos crimes que cometeram. Temos de resgatar neste país os valores proclamados pelo Artigo V da Constituição de 1988.


Coordenação Nacional da PPL – 15/12/2021
Pastoral Popular Luterana
Rua Humaitá, 1030 – Bairro Bortolanza (Morro das Antenas) – 89887-000 Palmitos, SC (55) 9710 1990
http://pastoral.org.br/

Cartas Pastorais

Domesticamos o Advento

Amigas e amigos, companheiras e companheiros de fé e caminhada …


Estamos em tempo de Advento. O ambiente criado pelos textos bíblicos provoca visões cheias de expectativas de vida, de experiências humanas, de transformações sociais, políticas e econômicas. Tudo motivado por uma grande ansiedade pela vinda do Salvador. Por isso a Pastoral Popular Luterana se manifesta neste tempo privilegiado.
Domesticamos o Advento. Nas igrejas cristãs de nossos dias ele tornou-se um tempo a serviço de uma fé superficial e piedosa, sem as consequências do que ele significa: a espera de uma criança que será “sinal de contradição … para que se manifestem os pensamentos secretos de muitos corações” (Lucas 2.34s). Damos-lhe uma aparência aceitável, bonita e de conteúdo romântico.

Não que isso seja negativo, mas geralmente o cercamos de tantas luzes, que a sua luz própria fica ofuscada. Nós o envolvemos com tantos ruídos, postagens e votos natalinos que os seus lamentos e gemidos passam desapercebidos. Nada mais tem de sua liberdade original que constrange, envergonha e nos desnuda da desumanidade com que nos vestimos.


Para o advento de sua volta, Jesus coloca a comunidade em sintonia com a realidade (Mc 13). É tempo da comunidade de fé, responsável pelo Evangelho – a boa notícia da libertação – entender o seu mundo e saber qual é a sua responsabilidade. Quando discípulos e discípulas perguntam ao Mestre quais serão os sinais, a resposta é uma descrição dos acontecimentos que cercam a comunidade e provocam muito sofrimento. Jesus faz ver e entender que dias de sofrimento virão e fazem parte da caminhada da fé que se vive em amor, resistência e fidelidade à causa do Evangelho. Não ilude ninguém.


Que fatos da vida podem ser identificados como dias de sofrimento? Vocês ouvirão barulho de balas perdidas atingindo crianças negras, policiais atirando em pessoas inocentes em comunidades empobrecidas, garimpeiros ilegais invadindo territórios indígenas, contaminando seus rios de mercúrio e matando crianças com suas potentes dragas. Haverá medo das milícias formadas por ex-policiais que formam os novos grupos de extermínio, facções do narcotráfico e do crime, órgãos de segurança pública que matam por vingança e para instalar medo e terror nas comunidades. Jovens negros e mulheres negras serão abordados na rua, revistados em espaços públicos, seguidos por seguranças em lojas, supermercados e shoppings center para garantir a segurança dos frequentadores. Serão caluniados, agredidos e mortos pessoas por causa de sua orientação sexual e identidade de gênero. Casais não poderão mais sentar nos bancos das praças a noite para verem as crianças correndo e brincando; e admirar a lua e as estrelas.


Vocês também ouvirão barulho de objetos sendo quebrados, gritos de ameaça e de medo. Verão homens agredindo mulheres, crianças e jovens dentro de lares que deveriam ser espaços de proteção, cuidado e acolhimento. Mulheres serão agredidas, ameaçadas e mortas por seus maridos, ex-maridos e companheiros. Crianças e jovens sofrerão agressões físicas, serão molestadas e estupradas por pais, padrastos, companheiros, tios, avós ou amigos da família. Procurarão enganar vocês afirmando que o preconceito, o racismo, a misoginia, a homofobia e o machismo são o exercício da liberdade individual e de expressão.
Comunidades de povos indígenas serão abandonadas a própria sorte, com cortes de verbas públicas para a saúde e educação. Suas terras serão objeto de desejo e sofrerão invasões. O projeto de extermínio continuará sendo colocado em prática impunemente. Milhares, talvez milhões de pessoas passarão fome por sua situação de extrema miséria. Vasculharão lixos e lixões para encontrar alguma comida. Farão filas e chegarão a brigar para conseguir ossos bovinos e carcaças de frangos. A justiça formal da Lei estará do lado de quem a consiga comprar ou corromper. Muitos ouvirão sobre esses fatos, mas as notícias entrarão por um ouvido e sairão no outro.
Mas não será o fim!


Haverá tempestades tropicais, ventos cada vez mais fortes, chuva de pedras, secas, rios secos, falta de água nos reservatórios, desmatamentos e queimadas. As secas em terras antes bem servidas pelas chuvas que vem da Amazônia se multiplicarão porque escasseiam os rios voadores. Os biomas da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal terão sua vegetação nativa degradada pelo desmatamento, queimadas e grilagem de terras. As comunidades tradicionais que vivem nesses territórios serão expulsas. Serão sacrificadas mais de 610 mil vidas humanas na pandemia de um novo vírus porque cuidados básicos cientificamente comprovados, como o uso de máscaras, higienização das mãos e a urgência da vacinação serão temas de campanhas de desinformação e mentiras. A prioridade será salvar a economia antes que se garanta a vida da maioria do povo.
Assim serão os sinais das primeiras dores do parto de uma nova sociedade.


Vocês serão caluniados, perseguidos, ameaçados com violência. Sofrerão ofensas quando levantarem esses assuntos ou outros como o comércio de armas, o tráfico de pessoas, especialmente jovens mulheres, e mortes, muitas mortes. Mas haverá também sinais de resistência e luta: Dia da Consciência Negra; Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, Dia Internacional dos Direitos Humanos; as campanhas e atividade de combate à violência infantil, ao idoso e à pessoa com deficiência; campanhas pela preservação do meio ambiente e das espécies. Ao se envolverem em favor da Vida vocês falarão sobre o Evangelho. E o Evangelho proclama que a Vida vence a morte.


Antes de chegar o fim desse tempo de dores, o Evangelho será anunciado a todos os povos. Mas surpreendentemente, desde os mais vulneráveis, empobrecidos e aparentemente sem estudo.
Sim vocês falarão sobre o Evangelho. As palavras que disserem não serão de vocês, mas virão por meio do Espírito Santo.


É nesse tempo e realidade que nos encontramos. Esses são os sinais de nossos tempos, diante dos quais vivemos o advento da vinda de Jesus. E quem estiver longe ou ignorar as vítimas desse tempo de sofrimentos, mesmo que seja uma pessoa cristã piedosa, está longe de Cristo. O que vocês fizerem ou deixarem de fazer a esses nossos irmãos e irmãs mais pequenos: os famintos, os sedentos, os encarcerados e os nus, foi a mim que vocês o fizeram ou deixaram de fazer (Mateus 25.40,45).


ADVENTO – TEMPO DE ESPERA, SIM.


MAS TAMBÉM TEMPO DE CONVERSÃO!



Advento, dezembro de 2021


Cartas Pastorais

PRONUNCIAMENTO PÚBLICO DO EX-PRESIDENTE DA IECLB, P. Dr. WALTER ALTMANN, NAS REDES SOCIAIS

FÉ CRISTÃ, IGREJAS E DEMOCRACIA
• A democracia brasileira tem se mostrado nos últimos tempos como
ainda muito frágil. É preciso e urgente que nos empenhemos em
protegê-la e fortalecê-la. Cabe perguntar em que sentido temos,
como pessoas cristãs e como igrejas, responsabilidade nesse esforço
coletivo.
• Segundo o apóstolo Paulo (Romanos 13), a autoridade constituída
tem como finalidade propiciar o bem e coibir o mal. Daí que a
atitude recomendada a pessoas cristãs em relação às autoridades é,
em princípio, a de respeito e, inclusive, a de apoio, por exemplo,
através do pagamento correto de tributos. Isso, contudo, não
significa que as autoridades constituídas sempre cumpram
corretamente com a sua finalidade.
• Ao contrário, no dizer de Lutero, por exemplo, em seu escrito “Da
autoridade secular, até que ponto lhe é devida obediência”, de
1523, um bom governante é “uma ave rara”. Por isso ele fala nesse
escrito sobre os limites da obediência a autoridades constituídas.
Assim, o apoio a autoridades e a regimes políticos nunca será
incondicional, mas sempre crítico. Isso se expressa, em primeiro
lugar, pela tradição consolidada de a comunidade cristã, quando
reunida em culto, interceder pelas autoridades, quaisquer que elas
sejam. Interceder é uma forma de apoio, mas é também uma forma
de crítica, pois ao interceder-se por uma autoridade, está implícito
que ela pode não estar cumprindo a contento com aquilo pelo que
se intercede e de qualquer modo necessita dessa intercessão para
se desincumbir a contento da responsabilidade com que está
incumbida.
• Outra razão para essa postura, em princípio, de solidariedade, mas
sempre de forma crítica, consiste em que a fé cristã tem muito
presente a enorme tentação que reside no exercício do poder. Não
por nada, nas tentações que o próprio Jesus sofreu de parte de
Satanás, se encontra o exercício do poder, poder ilimitado. Propôs
Satanás a Jesus dar a ele “todos os reinos do mundo e a sua glória”,
se Jesus, prostado, o adorasse (Mateus 4.8-9). Jesus resiste,
lembrando que segundo a Escritura, a adoração é devida
exclusivamente a Deus. Ou seja: nenhum poder terreno pode ser
absoluto, mas deverá ser sempre limitado. A pretensão ao poder
irrestrito sempre leva à opressão. A limitação do poder é condição
essencial, para que ele possa ser exercido como serviço para o bem.
• A Escritura também conhece o arbítrio do poder autoritário
e sua opressão mortal. Em Apocalipse 13, o apóstolo
descreve, com detalhes assustadores, a besta, diante da
qual todas as pessoas são compelidas à força a ela se
sujeitarem. São imagens de difícil discernimento quanto a
seu alcance, mas a boa interpretação bíblica detecta aí a
referência ao Império Romano e seu poder que, como
sabemos, chegou a perseguir as comunidades cristãs e até a
levar à morte inúmeras pessoas delas integrantes. Nesse
caso extremo, cabe a quem professa a fé cristã resistir, não
se dobrando, mas, se preciso, sofrendo o martírio.
• Ficam assim descritos os parâmetros principais para o
relacionamento da fé cristã com regimes e autoridades
políticas. Poderíamos também resumir tudo na famosa e
genial afirmação de Jesus de que devemos “dar a César o
que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22.21).
Mas também essa frase de Jesus tem sofrido interpretações
equivocadas de modo bastante generalizado. Entende-se,
então, que Jesus teria estatuído uma separação absoluta
entre Igreja e Estado, entre fé cristã e ação política. O
âmbito político seria autônomo, e a fé cristã não deveria se
envolver com política.
• No entanto, a melhor tradução do dito de Jesus – e
linguisticamente de todo correta – é a seguinte: “Daí a
César o que é de César, mas a Deus o que é de Deus.
” Mas a
Deus o que é de Deus. Ou seja, Jesus afirma aí Deus estar
“acima de tudo”, só que não como uma fórmula vazia e
demagógica, mas como afirmação da real supremacia de
Deus sobre tudo o mais e, portanto, também sobre regimes
políticos e qualquer detentor de poder terreno. O poder de
César é aí claramente limitado. Devemos entender “daí a
César só o que é de César”. Só o que é de César, de maneira
nenhuma o que pertence a Deus.
•Dito de outra forma: a frase de Jesus de modo algum
serve para sacramentar qualquer ordem política,
mas, ao contrário, dá o parâmetro crítico a partir do
qual as pessoas cristãs e as igrejas têm o
compromisso de se posicionarem em relação a
questões de ordem pública. E aí aquela afirmação do
apóstolo Paulo de que as autoridades estão
constituídas para servir ao bem e coibir o mal se
torna relevante mais uma vez.
• Feitas essas considerações bíblico-teológicas, examinemos
a questão dos regimes políticos. Desde a promulgação da
atual Constituição brasileira, em 5 de outubro de 1988, o
Brasil se propõe a constituir um estado democrático de
direito. Foi algo duramente conquistado pelo povo ao longo
de 21 anos de ditadura militar. É claro que a democracia
não é o único regime político possível. Ao contrário, ela é,
na história, um regime relativamente recente, emergente,
com matizes algo diferentes, sobretudo a partir da
Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789).
Seu princípio básico é que “todo poder emana do povo” e
“em seu nome será exercido”.
• Ressalve-se que direitos fundamentais desse ordenamento
ainda tiveram que ser conquistados ao longo do tempo
subsequente, por exemplo, o direito ao voto de mulheres,
negros e indígenas. No início dos Estados Unidos, o direito
ao voto estava reservado apenas aos homens brancos
proprietários de terra. Mas a mudança fundamental estava
estatuída, na medida em que a vontade política passou a
ser exercitada “debaixo para cima”, e não o inverso. Como
proteção, estabeleceu-se o dispositivo de alternância no
exercício do poder, mediante o recurso soberano e regular
do voto cidadão.
• Nada disso havia na época de Jesus, nem nos muitos
séculos subsequentes. A pequena comunidade cristã
emergente após Jesus não tinha qualquer participação na
governança, nem podia ter, pelas circunstâncias peculiares
do mundo em que estava inserida. Cabia-lhe, contudo,
cooperar para o bem das pessoas, interceder pelas
autoridades e, caso necessário, sofrer as consequências das
perseguições que contra ela fossem desatadas. Ainda assim
– ou por isso mesmo –, ela cresceu e paulatinamente foi
ocupando espaços cada vez mais significativos na
sociedade, até que, com a conversão do Imperador
Constantino à fé cristã, no início do século IV, a fé cristã se
tornou a religião oficial do Império Romano.
• Tal aliança obviamente proporcionou à Igreja espaço e
possibilidades impensáveis anteriormente. A Igreja se expandiu
pelo Império, a fé cristã foi levada a outros povos, inclusive,
mais de mil anos após, a outros continentes, também às terras
habitadas por povos indígenas, que experimentaram a sua
subjugação com a chegada concomitante da espada e da cruz.
Fica evidente que todo esse desenvolvimento em nada
contribuiu para preservar a credibilidade que caracterizou a fé
cristã nos primeiros séculos. O que antes era serviço,
intercessão e, eventualmente, sofrimento, passou a ser, em
grande medida, interesses próprios, não poucos privilégios e
dominação de outros povos não-cristãos. Fala-se da era
constantiniana que, de certo modo, se estendeu até a
modernidade e o advento das já citadas revoluções.
• Foi a Reforma protestante no século XVI, liderada por Lutero,
Calvino e outros, que abriu caminho para o advento da democracia
alguns séculos mais à frente. Lutero, por exemplo, se opôs à tutela
das autoridades seculares pela Igreja. As autoridades seculares
estariam legitimamente incumbidas de cuidar da paz e do bem de
seus súditos. Já à Igreja cabia a proclamação da palavra libertadora
de que somos pessoas agraciadas por Deus em Jesus Cristo e
justificadas por fé somente. Foi uma distinção relevante, mas não
uma separação total, como infelizmente ainda hoje muitas pessoas
querem fazer crer. Pois da fiel proclamação da palavra de Deus faz
parte inarredável a tarefa de vigia sobre todos os âmbitos, não
deixando nunca de reivindicar também diante das autoridades
seculares o império da verdade, da justiça e da paz, às quais se
acrescenta o imperioso cuidado da boa criação de Deus.
• Já Calvino foi um insistente arauto da soberania de Deus, a
quem, unicamente, é devida a glória. Por outro lado, a ênfase
da Reforma no sacerdócio universal das pessoas que creem, fez
jus à compreensão de que todo ser humano, sem qualquer
exceção, é criatura à imagem do próprio Deus, gozando,
portanto, de uma dignidade que não pode ser violada por
pretexto algum.
• Em perspectiva histórica, alguns séculos não constituem um
longo caminho que levou dessa fundamental redescoberta
evangélica por parte da Reforma até o advento da modernidade
e um ordenamento cultural e político democrático, que inclui
essencialmente a afirmação dos direitos humanos. Em termos
políticos, é igualmente essencial a possibilidade regrada da
alternância do poder, através de eleições livres e universais.
• Estabeleceu-se também a divisão entre três poderes – o
executivo, o legislativo e o judiciário –, que devem atuar de
forma independente e harmônica, o que não é
particularmente fácil de se concretizar, mas é essencial para
o necessário equilíbrio, complementação e correção mútua.
Isso não significa que a democracia seja um sistema
perfeito, longe disso. A fé cristã sabe que todo e qualquer
sistema político será sempre precário, quando comparado
com o Reino de Deus, e está sujeito, como tudo o mais, à
tentação do poder arbitrário e do mal que venha a ser
infligido às pessoas e a grupos mais vulneráveis. Por isso
mesmo, a tarefa permanente da comunidade cristã e das
igrejas é a de vigilância diante do arbítrio e de
solidariedade com quem seja injustiçado e oprimido.
• No entanto, apesar das limitações e falhas no exercício da democracia,
não há qualquer razão para propugnarmos por um retorno a tempos e
modelos de tempos passados, muito menos a chamados “períodos de
exceção”, eufemismo para regimes ditatoriais que afastam a
indispensável e irrestrita observância dos direitos humanos e que
impõem à maioria da população a vontade de minorias detentoras do
poder de finanças e armas. Ao contrário, as mazelas que podem ser
registradas, como a corrupção, as desigualdades sistêmicas e as odiosas
discriminações à base de preconceitos de gênero, de raça e de religião,
precisam ser superadas pelos próprios meios que um ordenamento
democrático propicia e deveria garantir, quais sejam, com observância de
preceitos legais, a livre expressão da vontade popular, nos meios de
comunicação, em demonstrações pacíficas e em eleições seguras. Foi
muito sábia, além de espirituosa, a observação do ex-primeiro-ministro
conservador da Grã-Bretanha, Winston Churchill: “A democracia é o pior
dos regimes políticos, com exceção de todos os demais…” Logo, precisa
ser preservada.
• Justamente porque, em tese, um ordenamento democrático
propicia e garante o bem comum, ele, na prática, também está
sempre sujeito à tentativa de ação deletéria por parte de
forças detentoras de privilégios, que não desejam
compartilhar suas benesses com setores que não têm acesso a
elas. Inclusive, é comum ver as forças com intentos ditatoriais
aproveitarem-se dos mecanismos inerentes à própria
democracia, para solapá-la e, quando possível, destruí-la. Daí
a necessidade da vigilância permanente da cidadania e das
instituições, sobretudo quando o sistema democrático de
direito é atacado em suas bases. As igrejas não têm razão
evangélica legítima para se eximir dessa responsabilidade.
• Cheguemos ao Brasil. A partir da proclamação de República,
em 1889, nosso país encetou o esforço de construção de
uma democracia, de forma precária a princípio, mas ainda
assim significativa. Nem por isso deixou de ser atacada e
mesmo suprimida com intervenções ditatoriais mais de
uma vez. Isso deveria nos atentar para o fato de que
tampouco hoje podemos dar por garantido o estado
democrático de direito. E não pode haver dúvida de que,
inclusive com reflexos nefastos no próprio interior das
igrejas, esse estado democrático de direito vem sendo
recentemente atacado por dentro com cada vez mais vigor,
de modo que a necessidade de vigilância e resistência se
fazem cada vez mais necessárias.
• Se momentaneamente esses ataques e tentativas de
supressão de pilares essenciais à democracia
recuam, não há nenhuma garantia de que não
voltem, com mais força inclusive, num futuro nada
distante. Em particular, teremos pela frente, uma
campanha eleitoral que poderá suscitar ações de
grande radicalidade e não há garantia alguma de que
sequer o resultado das eleições de 2022 venha a ser
acatado por todas as partes que as disputarão. Não
está totalmente fora do horizonte a possibilidade de
nova radical tentativa de quebra de nossa
democracia.
• Logo, será preciso aumentar a vigilância. É indispensável que o
ainda frágil estado democrático de direito do Brasil seja
defendido, preservado e fortalecido. É imperioso erguer a voz
nesse sentido. E as igrejas não podem se eximir da
responsabilidade de serem arautos da justiça e da paz, a partir
dos valores supremos que conhecem do Reino de Deus.
Infelizmente, não poucas igrejas, em grande parte em busca de
proveitos próprios, têm se aliado às forças antidemocráticas,
constituindo-se até mesmo em espécie de porta-bandeiras
dessas forças. Felizmente há no seio das igrejas também outras
vozes que têm alertado para os graves riscos que nosso país está
correndo – são, contudo, menos do que poderiam e deveriam ser.
Outras vozes mais precisam erguer-se, com clareza, em defesa do
estado democrático de direito.
• Em Apocalipse 3.14-22, o Apóstolo admoesta a igreja em
Laodiceia, conclamando-a ao arrependimento, necessário
por ela não ser, no dizer bíblico, nem fria nem quente, mas
simplesmente morna. “Quem dera fosses frio ou quente!”
(v. 16) Subentende-se que ser quente seria a opção correta
e ser frio uma equivocada, mas a pior opção de todas é ser
morno e insosso. Analogamente, podemos dizer em relação
ao contexto que estamos abordando, que a alternativa
evangélica correta e necessária é erguer a voz em defesa do
estado democrático de direito. E também: no atual
momento brasileiro, o silêncio funciona como suporte aos
ataques que são desferidos contra a democracia.
Concluímos: definitivamente, o silêncio não é, de forma
alguma, alternativa evangélica legítima.

Cartas Pastorais

PASTORAL POPULAR LUTERANA – PPL – IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL

CARTA PASTORAL 3/2021


“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos e filhas de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”. Mateus 5.9s
Amigas e amigos, companheiras e companheiros,
Na noite de 3 de setembro de 2021 realizamos a 24a Assembleia Nacional, um evento histórico da PPL. Pela primeira vez ela ocorreu de forma remota, on-line, algo que até então não conhecíamos com esta amplitude. Quase 40 pessoas estiveram conectadas por mais de duas honras, reafirmando nosso compromisso pastoral, social e ético. Outro motivo histórico é que a realizamos em meio a maior pandemia que surgiu no mundo e especialmente neste pobre país, governado por gente insana, perversa e ignorante de tudo o que é público, defesa de direitos sociais, de preservação ambiental. Assim, chamamos o nosso evento de “Assembleia da Pandemia da Covid-19” da qual saímos com a tarefa e as palavras de ordem: VACINA E VIDA PARA TODAS AS PESSOAS!
Para a PPL estas palavras concretizam nosso lema: Fé – Testemunho – Ação, que simbolicamente estão representadas nas três pétalas de nosso logotipo, em cores vermelha, azul e verde. Para pós, uma fé viva só se realiza em atos concretos, visíveis e que transformam. Esses atos começam na leitura orante da bíblia, na oração de entrega da vida e dos nossos talentos a quem é maior do que nós, na articulação com os movimentos socias e na formulação e prática de projetos que unem as pessoas em torno do evangelho vivido, encarnado, espiritualmente libertador e concretamente transformador de situações de morte em situações de VIDA.
Temos clareza de que somos uma pastoral. O espaço privilegiado é a vida cotidiana, o chão batido, a realidade das pessoas na qual o bom pastor cuida de suas ovelhas e vai adiante delas, chamando-nos para a caminhada: “Não tenham medo!” Portanto como pastoral, necessitamos estar inseridos na realidade cotidiana e, em função dessa realidade, dar um sentido e testemunho claro, fidedigno, de esperança. Nossas raízes pastorais estão fincadas no estudo da mensagem bíblica, na teologia da cruz de Lutero e na teologia da libertação. É este amálgama teológico e espiritual que nos oferece um embasamento firme para a oração pessoal e comunitária, a espiritualidade do caminho, a leitura e interpretação bíblica encarnadas e o serviço comunitário transformador.
Somos uma pastoral popular. Esse é o espaço e a realidade que a pastoral frequenta. É uma pastoral que visita a diversidade de vozes que hoje se manifestam contra a economia especulativa, as injustiças sociais, o mercado da fé, a intolerância étnica e religiosa e o sacrifício humano de mais de 580 mil pessoas falecidas devido à Covid-19 e à inépcia do governo federal e o Ministério da Saúde. A PPL entende que ninguém é detentor da verdade única, mas que o âmbito popular nos proporciona a diversidade de tensões, visões, esperanças e ações que nos fazem caminhar para outro mundo possível. Lá queremos estar presentes e participar.
Somos uma pastoral popular luterana. Somos vinculados pela fé à vivência dessa fé que liberta por graça e amor incondicional do Deus vivo que se fez gente em Jesus de Nazaré. É o que temos de mais próprio, mas bem por isso que desejamos repartir com quem caminha conosco. No meio e entre outros e outras, o jeito luterano de ser e crer é o que nos dá uma identidade própria. É este o ritmo com que bate o coração e pulsa a nossa vida quando se trata de viver a fé e praticar a justiça. Quando nossa voz se faz ouvir, não é pretensiosa a ponto de querer falar pela totalidade. Do nosso jeito de ser não conseguimos atender nem contemplar todas as questões que hoje palpitam e necessitam da presença da Igreja. Bem por isso somos parceiros e aliados de tantos outros irmãos e irmãs, diferentes de nós no seu jeito de falar, celebrar e viver sua fé. Antes, isto nos aproxima, pois na diversidade encontramos encantamento e a outra pessoa ou grupo se tornam companheiro/a de caminhada e de luta pela dignidade de vida de toda a humanidade e da criação de Deus.
Num momento dramático como o que vivemos no Brasil, manifestamos nossa total solidariedade com as famílias enlutadas, com aqueles e aquelas que – nas ruas – gritam por VIDA, por JUSTIÇA, por DEMOCRACIA, por DIREITOS HUMANOS e por LIBERDADE ANTES QUE SEJA TARDE!



Coordenação Nacional da PPL
Pastoral Popular Luterana
Rua Humaitá, 1030 – Bairro Bortolanza (Morro das Antenas) – 89887-000 Palmitos, SC (55) 9710 1990
http://pastoral.org.br/