Cartas Pastorais

“Nunca mais!”

PASTORAL POPULAR LUTERANA – PPL

IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL


Carta Pastoral 2 – 2022

O que é que o Senhor pede de ti, ó ser humano, senão que
pratiques a justiça e ames a misericórdia,
e andes humildemente diante do teu Deus?
Miquéias 6.8

Amigas e amigos, povo das comunidades,

Como parte da Comunidade viva que segue o testemunho do Cristo Crucificado, aquele que exaltou as mulheres e as crianças, que se identificou com as pessoas humildes e perseguidas, que expulsou os adoradores do poder e do dinheiro do Templo, que condenou a tortura, a violência, a usura, o falso testemunho e a covardia, que foi torturado e morto pelos dois poderes estabelecidos de sua época, o religioso e o político, acabando na morte de cruz como um inocente, ficamos estarrecidos diante dos últimos acontecimentos do final do mês de março de 2022 em nosso país.
Por isso e como testemunhas do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e em fidelidade a Ele, viemos a público, com temor e tremor diante do Deus da Vida e da Justiça, para esclarecer e denunciar o que segue:
1. O dia 31 de março de 1964 não foi o início de uma revolução que tinha como escopo defender a democracia, como quer fazer crer a nota do Ministério da Defesa sob a batuta do general Braga Neto. O 31 de março daquele ano constitui um dos capítulos mais sangrentos e tristes da história nacional. A Ditadura no Brasil, sob o comando dos militares a serviço de forças econômicas nacionais e estrangeiras, em conluio com empresários e a mídia corporativa, assassinou, torturou e violentou milhares de brasileiras e brasileiros, como testemunham pesquisas acadêmicas nacionais e mesmo dos EUA, baseadas em documentos fidedignos. A Ditadura de 1964 fechou o Congresso Nacional e todas as instituições que defendiam o Estado Democrático de Direito. Solapou as liberdades, censurou, perseguiu e matou aqueles e aquelas que se opunham ao regime totalitário e violento. A Ditadura, ao contrário do que proclamam seus porta-vozes atuais, defendeu e implementou a violência contra os próprios brasileiros e brasileiras. A violência política é o fim da liberdade e do embate político. A tortura é o contrário da democracia. A morte e perseguição política é a morte da ética e de qualquer resquício do Estado Democrático de Direito. Portanto, a nota de Braga Neto, que compara a ditadura a um processo democrático, é totalmente infundada e mentirosa. Não há nenhuma possibilidade de se comparar Ditadura com um processo democrático. A memória verdadeira de nossa história tem nomes e sobrenomes, que são justamente as centenas de vítimas mortas ou desaparecidas pelo regime civil-militar imposto a ferro e fogo. Como pessoas cristãs que seguem o Deus da vida, repudiamos as mentiras e declaramos que não iremos esquecer esses fatos, nem deixar que nossa história seja distorcida.
2. Por outro lado, nos deparamos também com denúncias de ações criminosas no Ministério da Educação, que culminaram com o afastamento do Ministro Milton Ribeiro, o qual se apresenta como Pastor e Teólogo evangélico (é de tradição presbiteriana). Através de um áudio vazado, o então Ministro disse claramente que, a pedido do Presidente da República, se deveria favorecer certas igrejas e alguns pastores escolhidos com as verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o que configura delito grave e fere a Constituição. Por conta de possíveis desvios de verba pública, essas pessoas podem ser enquadradas nos crimes de tráfico de influência e corrupção passiva, no mínimo. Em vista da gravidade desses fatos, senadores de vários partidos irão pedir a abertura de uma CPI do MEC. Inclusive, “as denúncias mais recentes chegam ao ponto de indicar o pagamento de propina com barras de ouro que totalizaria R$ 300 mil a título de liberação de recursos”, segundo fonte do Senado Federal. Enquanto ainda choramos pelas mais de 660 mil vítimas da Pandemia da Covid-19, pela situação financeira do país que voltou a estar no mapa da pobreza, por causa do escandaloso desemprego que afeta milhões de pessoas e suas famílias, com uma inflação de dois dígitos, com pessoas nas filas dos ossos por não ter o mínimo para comer, não podemos ficar omissos e calados diante do que fazem esses adoradores de bezerros de ouro, que buscam se enriquecer com o dinheiro público que deveria ser utilizado nas escolas brasileiras com nossas crianças e jovens. Não por acaso, milhares de escolas públicas viram sumir os alimentos da agricultura familiar que lhes chegava com as verbas da Merenda Escolar, o que compromete a saúde e a vida de milhões de crianças país afora.
Assim, como discípulas e discípulos de Jesus Cristo libertador, conclamamos as pessoas cristãs de todas as igrejas que confessam Jesus como Senhor da Vida Abundante, e mesmo pessoas de boa vontade, nesse tempo de Paixão e Páscoa, a seguir o caminho de Jesus, como está descrito pelo profeta Miqueias :
“Ele te declarou, ó ser humano, o que é bom e o que é que
o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça e ames a misericórdia,
e andes humildemente com o teu Deus (6.8)

Não podemos concordar que falsos pastores, adoradores de bezerros de ouro, falem e se apresentem como evangélicos e mensageiros do Senhor Jesus! Quanto a nós, que nos convertamos e pratiquemos a justiça e a misericórdia como nos ensina o profeta. E assim aprendamos a andar em humildade diante de Deus e das pessoas, anunciando a Boa Nova do Amor de Jesus, que não se coaduna com a violência de qualquer tipo de Ditadura, tampouco com o desvio de verbas públicas.
Coordenação Nacional da PPL – Abril de 2022

IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL

Cartas Pastorais

Carta Pastoral 01/2022 – Vacina para todas as crianças!

“Então lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse. Mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam, porque delas é o reino de Deus”. Mateus 10.13s.

Amigas e amigos, companheiras e companheiros de fé e caminhada.
A mensagem do evangelho é clara. Criança tem prioridade sempre na vida e mensagem de Jesus. Porque das crianças é o Reino de Deus. Por isso ele fica indignado quando seus amigos mais íntimos as excluem da bênção e impedem que mães e pais lhe tragam crianças para receberem sua bênção. A partir do gesto de Jesus aprendemos que bênção significa vida, aceitação da parte de Deus, acolhimento e proteção contra todos os males. Daí se pode entender claramente a indignação de Jesus contra seu grupo que cria empecilhos ou coloca obstáculos às crianças.
As palavras e ações de Jesus orientam o nosso jeito luterano de ser comunidade, caracterizando esse compromisso em sermos portadores de uma boa notícia. Ao atualizar esta narrativa central do evangelho envolvendo Jesus, e assumirmos a responsabilidade pelo testemunho público do evangelho para os dias de hoje, é inadiável manifestar o apoio à vacinação ampla e irrestrita das crianças do Brasil, sobretudo entre as idades de 5 a 11 anos, assim como todas as pessoas das demais idades.
Denunciamos que tanto o Ministério da Saúde quanto o Ministério da Cidadania prestam um desserviço à sociedade, aos pais e mães, às crianças e à saúde pública com atitudes que beiram o crime contra o que preconiza a Constituição Federal de 1988 (Artigos 5 e 6) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). As leis são claras no que se refere à vacinação de crianças e adolescentes. Quem conspira contra a vacinação, semeia dúvidas, menospreza os dados amplamente divulgados a respeito das crianças acometidas e vítimas da Covid 19, é passível de responder por crime de responsabilidade.
A comunidade cristã pauta sua vida e ação pelo evangelho de Jesus, aquele que afirma “Quem não receber o reino de Deus como uma criança, de maneira nenhuma entrará nele” (Mateus 18.15). Defendemos que a vacinação para crianças e adolescentes seja, além de disponibilizada, motivo de campanha de esclarecimento e de informações claras e precisas, combatendo as mentiras e o negacionismo, conclamando mães, pais e responsáveis ao atendimento deste direito e compromisso de cidadania. O Brasil já conta com cerca de 630 mil mortos na pandemia da Covid-19 e um número de mais de 25 milhões de casos conhecidos. Segundo dados do Instituto Butantan (07/01), mais de 1.400 crianças de 0 a 11 anos faleceram devido à Covid 19, enquanto outras 2.400 de Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica, associada à Covid 19. Infectologistas e epidemiologistas alertam para o crescimento de casos e de mortes com a nova variante ômicron. Ela só não trará maiores tragédias por causa do avanço da vacinação que vem alcançando cada dia mais pessoas no país.
Em boa hora, a Presidência da IECLB, em Nota Pública de 28 de janeiro passado, manifestou o seu apreço pelo esforço extraordinário de milhares de cientistas na pesquisa e produção das vacinas no mundo inteiro, num curto espaço de tempo. Reafirmando que o Brasil se tornou referência internacional com seu PNV – Plano Nacional de Vacinação, as autoridades pastorais da IECLB conclamam comunidades, mães, pais e todas as pessoas de fé a exercitarem “o direito e a responsabilidade de levar crianças e adolescentes para vacinar”. A orientação é muito oportuna e vem ao encontro do desejo de proteger nossas crianças e famílias contra a proliferação de um vírus que tem causado tristeza, morte e luto para milhares de nossas irmãs e irmãos.
A PPL se solidariza mais uma vez com essas famílias, se soma à chamada da Presidência da IECLB e conclama igualmente a que mães, pais, avós, responsáveis levem com toda a urgência e sentido de proteção à vida suas crianças aos locais de vacinação. Neste momento, esta ação de cuidado representa um sinal do reino de Deus no meio de nós.
Coordenação da PPL – fevereiro de 2022


Pastoral Popular Luterana
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Cartas Pastorais

CARTA PASTORAL PARA O NATAL – 2021 O Natal da Lua e da Estrela

Foi numa noite de lua cheia, nas veredas do grande sertão nordestino, que se deu o fato … Riobaldo, personagem do romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, atravessava os ermos da caatinga, quando ouviu os gemidos de uma parturiente. O som da dor vinha de um misérrimo casebre, enterrado na solidão. A mulher estava só, com suas dores e seu ventre inchado.

As andanças de Riobaldo e sua vida dura do cangaço o haviam preparado mais para ser um agente funerário, não para ser um obstetra. Mas naquela noite o jagunço não teve escolha. A força irresistível da vida havia convertido Riobaldo em parteira. Foi assim que, pelas mãos de um jagunço, nos cafundós do sertão nordestino, mais uma criança saltou para dentro da vida.

A essa altura da narrativa, ao som do choro do recém-nascido, Guimarães Rosa coloca as seguintes palavras na boca do extasiado Riobaldo: “Um menino nasceu. O mundo tornou a começar. E saiu para as luas …”. O milagre do recomeço do mundo acontece a cada parto. Sim, o mundo recomeça todas as vezes que, vencendo tantas forças contrárias como só no sertão nordestino é possível, a vida sobrevive e consegue reiniciar sua teimosa trajetória. O sertão nordestino é perigoso para a vida.

Nas veredas dos nossos urbanos, porém, não menos perigosos sertões, tornamo-nos jagunços cada vez mais cruéis, rudes e selvagens. O nosso jeito de viver, egoísta e intolerante, torna este sertão do século 21 tão ou mais perigoso para a vida do que o de Riobaldo e de toda a jagunçada da turma do Lampião. Extorquimo-nos mutuamente, violentamo-nos, mutilamo-nos, agredimo-nos, ignoramo-nos, executamo-nos com fúria tal que deixaria atônito o mais impiedoso dos cangaceiros. Nossas armas são palavras … Nossas “balas” são imagens, preconceitos, estereótipos.

Mas, no meio de tudo isso, há noites enluaradas. E em noites enluaradas, como aquela que banhou aquele casebre, tudo pode acontecer. Nossas crendices dizem que, numa noite assim, há homens que viram lobisomens e vagam pelo sertão, destilando horror e morte. Mas, na história de Guimarães Rosa, o luar do sertão transformou Riobaldo completamente. Fez daquele ser embrutecido pela crueza do cangaço um anfitrião terno, pronto para acolher nos braços a reinvenção do mundo. Uma criança recém-nascida transformou o jagunço em um ser capaz de enternecer-se.

O natal é uma noite iluminada por uma estrela. Numa noite fria e cheia de exclusão a luz dessa estrela ilumina uma estrebaria, onde se ouvem os gemidos de uma frágil mulher. 

Cada uma e cada um de nós é confrontado com a incontornável necessidade de ajudar neste parto … como Riobaldos embrutecidos por este mundo que nega a justiça e asfixia a paz.

Que o encontro com esta estrela e com aquela mulher em dores de parto na estrebaria de Belém nos transforme também, como Riobaldos, da brutalidade à ternura. Que possamos dizer, como Riobaldo: “Um menino nasceu. O mundo tornou a começar”! Deixemos que a lua e a estrela dessa noite única na história nos transforme em anfitriões da vida. Anoitecemos lobisomens e feras de todo tipo.

O Natal pode nos fazer amanhecer parteiras da humanidade. Um pequeno menino, deitado nas palhas da manjedoura, tem o poder de amolecer nossos duros corações, transformando egoísmo em solidariedade, medo em coragem, desespero em esperança, vazio em sentido de vida. Que o sentido do nosso ESPERANÇAR também nos faça, como Riobaldo, “sair para as Luas”.

Texto do P. Clóvis Lindner

(Por ocasião do Encontro do Fórum ESPERANÇAR – Diversidade, Diálogo e Democracia na IECLB, em 08.12.2021)

Abençoado tempo de Natal e Novo Ano!

Coordenação Nacional da PPL 

Cartas Pastorais

PASTORAL POPULAR LUTERANA – PPL

Irmãs e irmãos na caminhada da resistência e da justiça


Que tempos difíceis e cruéis vivemos no Brasil de nossos dias! Muitas mulheres em nossas igrejas vêm sendo ultrajadas, perseguidas, caluniadas por sua defesa da dignidade das suas irmãs. Isto é inaceitável, venha de quem vier. Não é o que aprendemos de Jesus, o bom pastor que dá a vida por seus amigos e amigas. Dele aprendemos outras atitudes, gestos de amor, compaixão e aceitação incondicional (João 8.1ss). Desta vez, porém, chegamos ao ápice da desfaçatez. Quando a Pastora Odja Barros da Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió, AL, abençoou o matrimônio de duas jovens fieis de sua comunidade, além de ser ofendida com as palavras mais abjetas, foi ameaçada de morte. Como é possível que tenhamos chegado a este limite impensável neste país?


É hora de repensarmos em profundidade nossa fé e vivência do evangelho de Jesus. O apóstolo Paulo – teólogo da graça de Deus – foi muito claro ao escrever para a comunidade de Roma: “A ninguém fiqueis devendo cousa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama ao próximo tem cumprido a lei” (Romanos 13.8). Pedro igualmente ensinou as comunidades que pastoreou: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados” (1 Pedro 4.8). Estas recomendações apenas reverberam o ensino de Jesus e o que João escreveu em sua Primeira carta às comunidades da Ásia menor: “Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1 João 4.16).


Uma comunidade cristã se destaca por ser acolhedora, generosa e cheia de amor mútuo; jamais julga por antecipação. O julgamento pertence a Deus. E ele usa de misericórdia para com todas as pessoas que depositam confiança nele. A Igreja Batista do Pinheiro manifesta grande abertura com sua acolhida e bênção para com duas jovens fieis que desejam viver juntas o amor que as uniu. Isso coloca esta igreja no caminho de Jesus e do Deus de Amor.


A PPL – Pastoral Popular Luterana se solidariza de forma pública e irrestrita com nossa colega e irmã Odja Barros bem como com sua comunidade. A elas nos sentimos unidos pela mesma fé, pelo mesmo amor e mesmo propósito de viver nossa cidadania com respeito por todas as pessoas amadas pelo Deus vivo.
Que as ameaças sejam esclarecidas pelas autoridades de segurança da cidade de Maceió e seus responsáveis devidamente enquadrados nos crimes que cometeram. Temos de resgatar neste país os valores proclamados pelo Artigo V da Constituição de 1988.


Coordenação Nacional da PPL – 15/12/2021
Pastoral Popular Luterana
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Cartas Pastorais

Domesticamos o Advento

Amigas e amigos, companheiras e companheiros de fé e caminhada …


Estamos em tempo de Advento. O ambiente criado pelos textos bíblicos provoca visões cheias de expectativas de vida, de experiências humanas, de transformações sociais, políticas e econômicas. Tudo motivado por uma grande ansiedade pela vinda do Salvador. Por isso a Pastoral Popular Luterana se manifesta neste tempo privilegiado.
Domesticamos o Advento. Nas igrejas cristãs de nossos dias ele tornou-se um tempo a serviço de uma fé superficial e piedosa, sem as consequências do que ele significa: a espera de uma criança que será “sinal de contradição … para que se manifestem os pensamentos secretos de muitos corações” (Lucas 2.34s). Damos-lhe uma aparência aceitável, bonita e de conteúdo romântico.

Não que isso seja negativo, mas geralmente o cercamos de tantas luzes, que a sua luz própria fica ofuscada. Nós o envolvemos com tantos ruídos, postagens e votos natalinos que os seus lamentos e gemidos passam desapercebidos. Nada mais tem de sua liberdade original que constrange, envergonha e nos desnuda da desumanidade com que nos vestimos.


Para o advento de sua volta, Jesus coloca a comunidade em sintonia com a realidade (Mc 13). É tempo da comunidade de fé, responsável pelo Evangelho – a boa notícia da libertação – entender o seu mundo e saber qual é a sua responsabilidade. Quando discípulos e discípulas perguntam ao Mestre quais serão os sinais, a resposta é uma descrição dos acontecimentos que cercam a comunidade e provocam muito sofrimento. Jesus faz ver e entender que dias de sofrimento virão e fazem parte da caminhada da fé que se vive em amor, resistência e fidelidade à causa do Evangelho. Não ilude ninguém.


Que fatos da vida podem ser identificados como dias de sofrimento? Vocês ouvirão barulho de balas perdidas atingindo crianças negras, policiais atirando em pessoas inocentes em comunidades empobrecidas, garimpeiros ilegais invadindo territórios indígenas, contaminando seus rios de mercúrio e matando crianças com suas potentes dragas. Haverá medo das milícias formadas por ex-policiais que formam os novos grupos de extermínio, facções do narcotráfico e do crime, órgãos de segurança pública que matam por vingança e para instalar medo e terror nas comunidades. Jovens negros e mulheres negras serão abordados na rua, revistados em espaços públicos, seguidos por seguranças em lojas, supermercados e shoppings center para garantir a segurança dos frequentadores. Serão caluniados, agredidos e mortos pessoas por causa de sua orientação sexual e identidade de gênero. Casais não poderão mais sentar nos bancos das praças a noite para verem as crianças correndo e brincando; e admirar a lua e as estrelas.


Vocês também ouvirão barulho de objetos sendo quebrados, gritos de ameaça e de medo. Verão homens agredindo mulheres, crianças e jovens dentro de lares que deveriam ser espaços de proteção, cuidado e acolhimento. Mulheres serão agredidas, ameaçadas e mortas por seus maridos, ex-maridos e companheiros. Crianças e jovens sofrerão agressões físicas, serão molestadas e estupradas por pais, padrastos, companheiros, tios, avós ou amigos da família. Procurarão enganar vocês afirmando que o preconceito, o racismo, a misoginia, a homofobia e o machismo são o exercício da liberdade individual e de expressão.
Comunidades de povos indígenas serão abandonadas a própria sorte, com cortes de verbas públicas para a saúde e educação. Suas terras serão objeto de desejo e sofrerão invasões. O projeto de extermínio continuará sendo colocado em prática impunemente. Milhares, talvez milhões de pessoas passarão fome por sua situação de extrema miséria. Vasculharão lixos e lixões para encontrar alguma comida. Farão filas e chegarão a brigar para conseguir ossos bovinos e carcaças de frangos. A justiça formal da Lei estará do lado de quem a consiga comprar ou corromper. Muitos ouvirão sobre esses fatos, mas as notícias entrarão por um ouvido e sairão no outro.
Mas não será o fim!


Haverá tempestades tropicais, ventos cada vez mais fortes, chuva de pedras, secas, rios secos, falta de água nos reservatórios, desmatamentos e queimadas. As secas em terras antes bem servidas pelas chuvas que vem da Amazônia se multiplicarão porque escasseiam os rios voadores. Os biomas da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal terão sua vegetação nativa degradada pelo desmatamento, queimadas e grilagem de terras. As comunidades tradicionais que vivem nesses territórios serão expulsas. Serão sacrificadas mais de 610 mil vidas humanas na pandemia de um novo vírus porque cuidados básicos cientificamente comprovados, como o uso de máscaras, higienização das mãos e a urgência da vacinação serão temas de campanhas de desinformação e mentiras. A prioridade será salvar a economia antes que se garanta a vida da maioria do povo.
Assim serão os sinais das primeiras dores do parto de uma nova sociedade.


Vocês serão caluniados, perseguidos, ameaçados com violência. Sofrerão ofensas quando levantarem esses assuntos ou outros como o comércio de armas, o tráfico de pessoas, especialmente jovens mulheres, e mortes, muitas mortes. Mas haverá também sinais de resistência e luta: Dia da Consciência Negra; Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, Dia Internacional dos Direitos Humanos; as campanhas e atividade de combate à violência infantil, ao idoso e à pessoa com deficiência; campanhas pela preservação do meio ambiente e das espécies. Ao se envolverem em favor da Vida vocês falarão sobre o Evangelho. E o Evangelho proclama que a Vida vence a morte.


Antes de chegar o fim desse tempo de dores, o Evangelho será anunciado a todos os povos. Mas surpreendentemente, desde os mais vulneráveis, empobrecidos e aparentemente sem estudo.
Sim vocês falarão sobre o Evangelho. As palavras que disserem não serão de vocês, mas virão por meio do Espírito Santo.


É nesse tempo e realidade que nos encontramos. Esses são os sinais de nossos tempos, diante dos quais vivemos o advento da vinda de Jesus. E quem estiver longe ou ignorar as vítimas desse tempo de sofrimentos, mesmo que seja uma pessoa cristã piedosa, está longe de Cristo. O que vocês fizerem ou deixarem de fazer a esses nossos irmãos e irmãs mais pequenos: os famintos, os sedentos, os encarcerados e os nus, foi a mim que vocês o fizeram ou deixaram de fazer (Mateus 25.40,45).


ADVENTO – TEMPO DE ESPERA, SIM.


MAS TAMBÉM TEMPO DE CONVERSÃO!



Advento, dezembro de 2021