Cartas Pastorais

Carta Pastoral 03/2022 Páscoa – Cristo vive!

Carta Pastoral 03/2022 Páscoa – Cristo vive!
Amigas e amigos, irmãs e irmãos de fé!
Foram dias difíceis, pesados, cheios de dores e cruzes. Mas foram dias em que Jesus de Nazaré manteve sua firmeza, coerência e vontade inabalável de servir às pessoas com as quais se misturava , questionando e transformando as complicadas leis em uma única proposta: o amor. O amor de uns para com os outros, de umas para com as outras. Ele afirmou: “O meu mandamento é este: que vocês amem uns aos outros assim como eu amei vocês” (João 15.12). Qual a consequência de um tal amor? Jesus adiantou ao prevenir seu pequeno grupo de discípulas e discípulos: “Ninguém tem maior amor do que aquela pessoa que dá a sua vida em favor de seus amigos e amigas” (João 15.13) .
No seguimento de Jesus de Nazaré, ousamos afirmar que diversas vezes Jesus caiu e entregou sua vida sob o peso das cruzes do nosso tempo, as cruzes de mais 660 mil vidas ceifadas pela Covid-19, as cruzes plantadas nas guerras que hoje desgraçam a vida dos povos na Somália, no Iêmen, na Síria, na Ucrânia, mas também as guerras contra os pobres em nosso país, especialmente jovens negros, mulheres que sofrem o feminicídio, os povos indígenas e quilombolas. Todas essas vidas humanas são sacrificadas em nome do deus Mercado e das corporações que nos dominam. São essas forças políticas e econômicas que sacrificam milhares de vidas nas periferias das cidades, nas zonas rurais, entre os povos tradicionais agredidos em seus territórios e ambientes ecológicos. Quando olhamos para a cruz de Jesus e meditamos sobre sua Paixão, precisamos abrir bem os olhos para enxergar nesses sofrimentos inocentes a paixão acontecendo hoje entre nós. A cruz continua a ser uma realidade gritante. Por isso, gritamos com Jesus: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste” (Mateus 27.46).
Sendo honestos conosco e diante de Deus, precisamos confessar: nós também continuamos a erguer cruzes a cada dia nas mais diversas situações. Por isso temos que ouvir em cada domingo da Páscoa o alerta que nos tira do ambiente das mentiras e da violência cotidiana e que soa claro e alto: “Por que vocês estão procurando entre os mortos quem está vivo?” (Lc 24.5b). E com as mulheres amigas de Jesus que foram as primeiras a testemunhar: “Ele vive!”, necessitamos seguir persistentes e corajosos, questionando a atual cultura da morte que insiste em acomodar-nos ao nosso cotidiano. Este é o convite à conversão cotidiana que a Páscoa nos faz.
A Páscoa é uma mensagem de salvação, de libertação das sombras da morte para a caminhada da Vida. Por isso ela nos fortalece para resistir e lutar pela PAZ, num mundo cercado de violência estrutural. A Páscoa de Jesus, que vence a cruz da maldade, nos torna um povo animado e alegre que anuncia a alegria do evangelho: Jesus vive! Esta fé nasce da Cruz e nos levanta na Páscoa quando nos encoraja a questionar as razões de tantas pessoas louvarem a cultura da morte baseada nas armas e no ódio ao outro. A Páscoa nos convida a superar o egoísmo infeliz, o preconceito contra quem é diferente de nós, a desonestidade de quem só pensa em seus próprios lucros, a violência gratuita. O Jesus ressuscitado pergunta: “Como vocês demoram para entender e para crer …” (Lucas 24.25) e ainda, “por que há tantas dúvidas na cabeça de vocês?” (Lucas 24.38).
Páscoa é Deus quem faz acontecer. É o Espírito vivo do Ressuscitado que nos faz experimentar já agora, em meio a este mundo caótico, as primícias do Reino de Deus, do amor feito partilha, da esperança que não falha, da fé que move montanhas. A proposta de Jesus vive. Vivamos esta Páscoa redobrando nossa fé na caminhada em defesa da vida de todas as pessoas e da nossa Terra comum, igualmente em sofrimento.
Coordenação Nacional da PPL Páscoa 2022

Cartas Pastorais

“Nunca mais!”

PASTORAL POPULAR LUTERANA – PPL

IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL


Carta Pastoral 2 – 2022

O que é que o Senhor pede de ti, ó ser humano, senão que
pratiques a justiça e ames a misericórdia,
e andes humildemente diante do teu Deus?
Miquéias 6.8

Amigas e amigos, povo das comunidades,

Como parte da Comunidade viva que segue o testemunho do Cristo Crucificado, aquele que exaltou as mulheres e as crianças, que se identificou com as pessoas humildes e perseguidas, que expulsou os adoradores do poder e do dinheiro do Templo, que condenou a tortura, a violência, a usura, o falso testemunho e a covardia, que foi torturado e morto pelos dois poderes estabelecidos de sua época, o religioso e o político, acabando na morte de cruz como um inocente, ficamos estarrecidos diante dos últimos acontecimentos do final do mês de março de 2022 em nosso país.
Por isso e como testemunhas do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e em fidelidade a Ele, viemos a público, com temor e tremor diante do Deus da Vida e da Justiça, para esclarecer e denunciar o que segue:
1. O dia 31 de março de 1964 não foi o início de uma revolução que tinha como escopo defender a democracia, como quer fazer crer a nota do Ministério da Defesa sob a batuta do general Braga Neto. O 31 de março daquele ano constitui um dos capítulos mais sangrentos e tristes da história nacional. A Ditadura no Brasil, sob o comando dos militares a serviço de forças econômicas nacionais e estrangeiras, em conluio com empresários e a mídia corporativa, assassinou, torturou e violentou milhares de brasileiras e brasileiros, como testemunham pesquisas acadêmicas nacionais e mesmo dos EUA, baseadas em documentos fidedignos. A Ditadura de 1964 fechou o Congresso Nacional e todas as instituições que defendiam o Estado Democrático de Direito. Solapou as liberdades, censurou, perseguiu e matou aqueles e aquelas que se opunham ao regime totalitário e violento. A Ditadura, ao contrário do que proclamam seus porta-vozes atuais, defendeu e implementou a violência contra os próprios brasileiros e brasileiras. A violência política é o fim da liberdade e do embate político. A tortura é o contrário da democracia. A morte e perseguição política é a morte da ética e de qualquer resquício do Estado Democrático de Direito. Portanto, a nota de Braga Neto, que compara a ditadura a um processo democrático, é totalmente infundada e mentirosa. Não há nenhuma possibilidade de se comparar Ditadura com um processo democrático. A memória verdadeira de nossa história tem nomes e sobrenomes, que são justamente as centenas de vítimas mortas ou desaparecidas pelo regime civil-militar imposto a ferro e fogo. Como pessoas cristãs que seguem o Deus da vida, repudiamos as mentiras e declaramos que não iremos esquecer esses fatos, nem deixar que nossa história seja distorcida.
2. Por outro lado, nos deparamos também com denúncias de ações criminosas no Ministério da Educação, que culminaram com o afastamento do Ministro Milton Ribeiro, o qual se apresenta como Pastor e Teólogo evangélico (é de tradição presbiteriana). Através de um áudio vazado, o então Ministro disse claramente que, a pedido do Presidente da República, se deveria favorecer certas igrejas e alguns pastores escolhidos com as verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o que configura delito grave e fere a Constituição. Por conta de possíveis desvios de verba pública, essas pessoas podem ser enquadradas nos crimes de tráfico de influência e corrupção passiva, no mínimo. Em vista da gravidade desses fatos, senadores de vários partidos irão pedir a abertura de uma CPI do MEC. Inclusive, “as denúncias mais recentes chegam ao ponto de indicar o pagamento de propina com barras de ouro que totalizaria R$ 300 mil a título de liberação de recursos”, segundo fonte do Senado Federal. Enquanto ainda choramos pelas mais de 660 mil vítimas da Pandemia da Covid-19, pela situação financeira do país que voltou a estar no mapa da pobreza, por causa do escandaloso desemprego que afeta milhões de pessoas e suas famílias, com uma inflação de dois dígitos, com pessoas nas filas dos ossos por não ter o mínimo para comer, não podemos ficar omissos e calados diante do que fazem esses adoradores de bezerros de ouro, que buscam se enriquecer com o dinheiro público que deveria ser utilizado nas escolas brasileiras com nossas crianças e jovens. Não por acaso, milhares de escolas públicas viram sumir os alimentos da agricultura familiar que lhes chegava com as verbas da Merenda Escolar, o que compromete a saúde e a vida de milhões de crianças país afora.
Assim, como discípulas e discípulos de Jesus Cristo libertador, conclamamos as pessoas cristãs de todas as igrejas que confessam Jesus como Senhor da Vida Abundante, e mesmo pessoas de boa vontade, nesse tempo de Paixão e Páscoa, a seguir o caminho de Jesus, como está descrito pelo profeta Miqueias :
“Ele te declarou, ó ser humano, o que é bom e o que é que
o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça e ames a misericórdia,
e andes humildemente com o teu Deus (6.8)

Não podemos concordar que falsos pastores, adoradores de bezerros de ouro, falem e se apresentem como evangélicos e mensageiros do Senhor Jesus! Quanto a nós, que nos convertamos e pratiquemos a justiça e a misericórdia como nos ensina o profeta. E assim aprendamos a andar em humildade diante de Deus e das pessoas, anunciando a Boa Nova do Amor de Jesus, que não se coaduna com a violência de qualquer tipo de Ditadura, tampouco com o desvio de verbas públicas.
Coordenação Nacional da PPL – Abril de 2022

IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL